
Antnio e Clepatra

William Shakespeare

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Titulo Original: Antony And Cleopatra
Edio
Ridendo Castigat Mores

Fonte Digital
www.jahr.org
"Todas as obras so de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigao de retribuir ao menos uma 
gota do que ela me proporcionou."
Nlson Jahr Garcia (1947-2002)

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Ridendo Castigat Mores

      
ANTNIO E
CLEPATRA

William
Shakespeare

      
NDICE
      
ATO I
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V

ATO II
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V
Cena VI
Cena VII

ATO III
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V
Cena VI
Cena VII
Cena VIII
Cena IX
Cena X
Cena XI

ATO IV
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V
Cena VI
Cena VII
Cena VIII
Cena IX
Cena X
Cena XI
Cena XII
Cena XIII

ATO V
Cena I
Cena II

      
Personagens Dramticas
      
MARCO ANTNIO, trinviro,
OTVIO CSAR, trinviro,
M. EMLIO LPIDO, trinviro,
SEXTO POMPEU,
DOMCIO ENOBARBO, amigo de Antnio,
VENTDIO, amigo de Antnio,
EROS, amigo de Antnio,
ESCARO, amigo de Antnio,
DERCETAS, amigo de Antnio,
DEMTRIO, amigo de Antnio,
FILO, amigo de Antnio,
MECENAS, amigo de Csar,
AGRIPA, amigo de Csar,
DOLABELA, amigo de Csar,
PROCULEIO, amigo de Csar,
TIREU, amigo de Csar,
GALO, amigo de Csar,
MENAS, amigo de Pompeu,
MENCRATES, amigo de Pompeu,
VARRIO, amigo de Pompeu,
TAURO, tenente-general de Csar,
CANDIO, tenente-general de Antnio,
SLIO, oficial sob as ordens de Ventdio,
EUFRNIO, embaixador de Antnio para Csar,
ALEXAS, servidor de Clepatra,
MARDIAN, servidor de Clepatra,
SELEUCO, servidor de Clepatra,
DIOMEDES, servidor de Clepatra,
Um adivinho,
Um bobo,
CLEPATRA, rainha do Egito,
OTVIA, irm de Csar e esposa de Antnio,
CHARMIAN, criada de Clepatra,
IRAS, criada de Clepatra,
Oficiais, soldados, mensageiros e gente de servio

      
ATO I
Cena I
      
Alexandria. Um quarto no palcio de Clepatra. Entram Demtrio e Filo.
      
     FILO - No! Passa da medida essa loucura do nosso general. Aqueles olhos altivos que brilhavam como Marte com seu arns chapeado, dominando multides de soldados 
em revista, ora se abaixam, ora se desviam do ofcio e devoo que lhes so prprios, para uma fronte escura. Aquele grande corao, que na grita das batalhas monumentais 
fazia que saltassem, partidas, as fivelas da couraa, agora renegou o autodomnio, para tornar-se a ventarola e o fole que acalmar tenta o ardor de uma cigana. Vede 
onde eles vm vindo! (Entram Antnio e Clepatra, com os respectivos sqitos; eunucos a abanam.) Tomai nota, e observareis como um dos trs pilares do mundo no 
palhao de uma simples rameira se mudou. Examinai-os!
     CLEPATRA - Se  amor, realmente, revelai-me quanto.
     ANTNIO - Pobre  o amor que pode ser contado.
     CLEPATRA - Vou pr um marco, para o ponto extremo do amor assinalar.
     ANTNIO - Fora preciso descobrir novos cus, uma outra terra.
     (Entra um ajudante.)
     AJUDANTE - Novas de Roma, meu bondoso chefe.
     ANTNIO - Que estais! Vamos l: resume a histria.
     CLEPATRA - No, Antnio! Ouvi tudo. Talvez Flvia se encontre estomagada, ou talvez ainda o Csar quase imberbe vos haja ordens mandado peremptrias: "Faze 
isto e aquilo; toma aquele reino, liberta este outro! Cumpre as minhas ordens, se no quiseres receber castigo."
     ANTNIO - Como, querida?
     CLEPATRA - Talvez? No;  certo: no podereis ficar aqui mais tempo; Csar j vos enviou a demisso. Por isso, Antnio, ouvi: onde  que se acha a expressa 
ordem de Flvia... isto , de Csar... de ambos? - Fazei entrar os mensageiros. - To certo como eu ser do Egito a rainha, Antnio, tu coraste. Esse teu sangue  
a maior homenagem feita a Csar, se no for o tributo da vergonha que tuas faces pagam, quando a lngua estrdula de Flvia te repreende. Ol! Os mensageiros!
     ANTNIO - Que se afunde Roma no Tibre e de seus gonzos salte a gigantesca abbada do imprio. Meu espao  este aqui. Todos os remos so argila, mais nada; 
nossa terra cenagosa alimenta homens e brutos, indiferentemente. Com nobreza viver  proceder desta maneira, (Abraa-a.) quando se encontra um par to ajustado, 
como se d conosco. Desafio todo o mundo, sob pena de castigo, para vir convencer-se de que somos sem confronto possvel.
     CLEPATRA - Admirvel falsidade! Por que casou com Flvia, se no lhe tinha amor? Quero a aparncia manter da tola que no sou realmente; continuar Antnio 
sendo o mesmo.
     ANTNIO - Mas amimado agora por Clepatra. Mas, pelo amor do Amor e de seus brandos momentos, no gastemos nosso tempo com debates fastientos. Nossas vidas 
no contm um minuto, um s, que deva passar sem nos deixar qualquer ventura. Qual  o divertimento desta noite?
     CLEPATRA - Ouvi os embaixadores.
     ANTNIO - Que rainha implicante, em que tudo assenta bem: repreender, rir, chorar, e em que se esforam as paixes porque em ti se tornem belas e admiradas. 
Nenhum correio, salvo se vier de tua parte. Os dois, sozinhos, percorreremos hoje  noite as ruas, para observarmos como vive o povo. Vamos, minha rainha, que isso 
mesmo quereis ontem. No; ficai calada.
     (Saem Antnio e Clepatra com seus sqitos.)
     DEMTRIO - Como! To pouco caso faz Antnio de Csar a esse ponto!
     FILO - Algumas vezes, senhor, isso se d, quando ele deixa de ser Antnio e se desfaz um pouco daquela dignidade que devia sempre estar com Antnio.
     DEMTRIO - Fico triste por ver que ele confirma os maldizentes da rua que sobre ele em Roma falam. Mas esperemos que amanh revele mais dgna compostura. Bom 
repouso.
     (Saem)

      
Cena II
      
O mesmo. Outro quarto. Entram Charmian, Iras, Alexas e um adivinho.
      
     CHARMIAN - Senhor Alexas, suave Alexas, extraordinrio Alexas, onde est o adivinho que tanto elogiastes  rainha? Oh! Quero que ele me mostre o marido que, 
como dizeis, ter de pr grinaldas nos cornos.
     ALEXAS - Adivinho!
     ADIVINHO - Que desejais!
     CHARMIAN -  este o homem? Sois vs, senhor, que conheceis as coisas?
     ADIVINHO - No grande livro da natura, alguma coisa consigo ler.
     ALEXAS - Mostrai-lhe a mo.
     (Entra Enobarbo.)
     ENOBARBO - Aprestai o banquete, sem demora, com vinho em profuso, para  sade de Clepatra beberem.
     CHARMIAN - Meu bom senhor, dai-me uma boa sorte.
     ADIVINHO - No dou sorte; apenas a revelo.
     CHARMIAN - Ento, por obsquio, revelai a minha.
     ADIVINHO - Ainda ficareis mais clara do que sois.
     CHARMIAN - Ele se refere  carne.
     IRAS - No;  que vos pintareis, quando ficardes velha.
     CHARMIAN - Que as rugas no o permitam!
     ALEXAS - No perturbeis sua prescincia; prestai ateno.
     CHARMIAN - Silncio!
     ADIVINHO - Amareis mais do que sereis amada.
     CHARMIAN - Prefiro aquecer o fgado com bebida.
     ALEXAS - No; ouamo-lo.
     CHARMIAN - Muito bem; agora qualquer sorte fora do comum. Fazei-me casar com trs reis, numa nica manh, e enviuvar deles todos; fazei que eu tenha um filho 
aos cinqenta, a quem prestar homenagem Herodes da Judia; revelai que vou casar-me com Otvio Csar, e equiparai-me, assim,  minha senhora.
     ADIVINHO - Sobrevivereis  senhora a que servis.
     CHARMIAN - Oh! excelente! Gosto mais de vida longa do que de figos.
     ADIVINHO - J vistes e provastes melhor sorte do que a que vos espera.
     CHARMIAN - Ento,  que meus filhos ficaro sem nome. Mas, por obsquio: ao todo, quantos meninos e quantas meninas irei ter?
     ADIVINHO - Um milho, se cada um de vossos desejos tivesse ventre e pudesse ser fecundado.
     CHARMIAN - Vai saindo, tolo! Mas enfim, por seres bruxo, te perdo.
     ALEXAS - Pensveis que vossos anelos s eram conhecidos da roupa da cama?
     CHARMIAN - Vamos! vamos! Contai agora a sorte de Iras.
     ALEXAS - Ns todos queremos saber a nossa sorte.
     ENOBARBO - A minha sorte, como a da maior parte da dos presentes, hoje  noite consistir... em ir bbedo para a cama.
     IRAS - Quando mais no seja, haveis de descobrir castidade na palma desta mo.
     CHARMIAN - Parece o Nilo, que, quando transborda, pressagia fome.
     IRAS - Vai saindo, estouvada! No entendes de vaticnios.
     CHARMIAN - Ora essa! Se uma palma untuosa no for indcio de fecundidade, no poderei coar as orelhas. Por favor, predizei-lhe apenas uma morte vulgar.
     ADIVINHO - Vossa sorte  igual  dela.
     IRAS - Como assim? Como assim? Descei a particularidades.
     ADIVINHO - J disse o que tinha a dizer.
     IRAS - Ento no tenho nem uma polegada de sorte mais do que ela?
     CHARMIAN - Bem; mas dando-se o caso de terdes mesmo uma s polegada de sorte mais do que eu, onde a ireis procurar?
     IRAS - No haveria de ser no nariz do meu marido.
     CHARMIAN - Possa o cu endireitar nossos pensamentos piores. Agora Alexas! A sorte dele! A sorte dele!  suave sis s te peo que o faais casar com uma mulher 
que no ande. E que ela venha a morrer, para dar lugar a outra pior, seguindo-se sempre  pior outra pior ainda, at que a pior de todas o acompanhe, rindo,  sepultura, 
cinqenta vezes corno manso! Exala-me esse voto, bondosa sis, ainda que me venhas a negar matria de mais peso. Imploro-te, bondosa sis.
     IRAS - Amm. Querida deusa, atende s oraes do povo, por que assim como aperta o corao ver mal casado um belo rapaz, mata de tristeza ver um rstico sem 
cornos. Por isso, bondosa sis, sem ofender o decoro, dai-lhe a sorte que ele merece.
     CHARMIAN - Amm.
     ALEXAS - Ora vede! Se dependesse delas fazer-me cabro, tornar-se-iam prostitutas, s para que isso acontecesse.
     ENOBARBO - Cuidado! Eis a Antnio.
     CHARMIAN - No;  Clepatra.
     (Entra Clepatra)
     CLEPATRA - No vistes meu senhor?
     ENOBARBO - No o vi, senhora.
     CLEPATRA - Aqui no se encontrava?
     CHARMIAN - No, senhora.
     CLEPATRA - Estava bem disposto; mas, de sbito, uma idia romana o deixou triste. Enobarbo!
     ENOBARBO - Senhora?
     CLEPATRA - Sai em busca dele e o traze at aqui. Onde est Alexas?
     ALEXAS - Aqui, s vossas ordens. Eis meu amo.
     (Entra Antnio, com mensageiros e criados.)
     CLEPATRA - No desejamos v-lo. Vem conosco.
     (Saem Clepatra, Enobarbo, Alexas, Iras, Charmian, o adivinho e criados.)
     MENSAGEIRO - Flvia, tua mulher, foi quem primeiro se ps em campo.
     ANTNIO - Contra o mano Lcio?
     MENSAGEIRO - Sim. Essa guerra, porm, terminou logo; a condio do tempo os fez amigos, a juntar-se levando-os contra Csar que, vitorioso no primeiro embate, 
da Itlia os expulsou.
     ANTNIO - Bem; que h de pior?
     MENSAGEIRO - As ms notcias infectado deixam quem tiver de cont-las.
     ANTNIO - S no caso de interessarem um covarde ou um tolo. Vamos, falai; o passado no tem fora nenhuma sobre mim.  o que te digo. Quem me conta a verdade, 
embora a morte se ache no que disser, por mim  ouvido como se me adulasse.
     MENSAGEIRO - Ento, Labieno - eis a notcia amarga - desde o Eufrates com suas foras partas tomou a sia; seu estandarte vencedor levado foi da Sria at  
Ldia e  Inia, enquanto...
     ANTNIO - Antnio, ias dizer...
     MENSAGEIRO - Oh! meu senhor!
     ANTNIO - S franco em teu falar; no atenues a linguagem do povo; chama Clepatra como em Roma lhe chamam; fala dela no fraseado de Flvia e censurando-me 
todas as faltas com o atrevimento s prprio da verdade e da malcia. Oh!  certo: de ns brotam ciznias quando repousam nossos ventos cleres. Enumerar nosso defeitos 
vale tanto quanto mond-los. Por enquanto, deixa-me s.
     MENSAGEIRO - s vossas gratas ordens. (Sai.)
     ANTNIO - Onde est o mensageiro de Sicone?
     PRIMEIRO CRIADO - H algum a que viesse de Sicone?
     SEGUNDO CRIADO - Aguarda vossas ordens.
     ANTNIO - Ento, que entre. Preciso arrebentar os fortes elos do Egito; do contrrio, viro tonto. (Entra outro mensageiro.) Quem sois?
     SEGUNDO MENSAGEIRO - Flvia, tua esposa, j no vive.
     ANTNIO - Morreu? Onde?
     SEGUNDO MENSAGEIRO - Em Sicone. O decurso da doena e tudo o mais de relevncia, que te importa saber, aqui se encontra. (Entrega-lhe uma carta.)
     ANTNIO - Podes sair. (Sai o segundo mensageiro.) Partiu um grande esprito! E assim o desejei! O que o desprezo muitas vezes atira para longe, reaver desejaramos. 
O gozo presente, declinando no seu curso, vem a tornar-se o oposto de si mesmo. Boa tornou-se por j ter morrido; a mo que a repeliu desejaria atra-la de novo. 
 necessrio que eu largue esta rainha feiticeira. Dez mil calamidades, mais que todos os males que eu conheo, est chocando minha grande nao. Ol, Enobarbo!
     (Volta Enobarbo.)
     ENOBARBO - Que desejais, senhor?
     ANTNIO - Sair daqui o mais depressa possvel.
     ENOBARBO - Se isso acontecer, mataremos as nossas mulheres. D pena elimin-las por um motivo to pequeno, muito embora com relao a uma grande causa elas 
todas devam ser tidas na conta de coisa nenhuma. Aos primeiros rudos da partida Clepatra morrer instantaneamente; j a vi morrer vinte vezes por motivos muito 
mais insignificantes. Estou convencido de que na morte h qualquer substncia que exerce influncia amorosa sobre ela, tal  a freqncia com que ela tem morrido.
     ANTNIO - Sua astcia escapa  compreenso humana.
     ENOBARBO - Ah, senhor! No! Suas paixes so feitas exclusivamente do mais puro amor; no podemos dar o nome de suspiros e de lgrimas aos furaces que lhe 
saem do peito e s catadupas que lhe brotam dos olhos: so vendavais e tempestades mais terrveis do que os que o calendrio anuncia. No, no pode ser astcia de 
sua parte, pois se assim fosse, ela seria capaz de produzir chuva tanto como Jove.
     ANTNIO - Quem me dera que nunca a tivesse visto!
     ENOBARBO - Oh, senhor! Tereis deixado de ver uma obra-prima maravilhosa, ficando vossa viagem desacreditada por esse fato.
     ANTNIO - Flvia morreu.
     ENOBARBO - Senhor!
     ANTNIO - Flvia morreu.
     ENOBARBO - Flvia!
     ANTNIO - Morta!
     ENOBARBO - Neste caso, senhor, aprestai s divindades um sacrifcio gratulatrio. Quando aos deuses apraz tirar a mulher a algum marido, este descobre neles 
o alfaiate da terra, consolando-se com a idia de que, quando as roupas velhas se tornam imprestveis, no faltam membros para fazer outras mais novas. Se em todo 
o mundo no houvesse outra mulher alm de Flvia, ento, sim; tereis, realmente, recebido um corte, o que seria de lamentar. Essa mgoa  coroada pelo consolo de 
que a vossa velha camisola de mulher dar nascimento a uma saia nova. Em verdade, as lgrimas que se contm numa cebola, dariam para lavar essa tristeza.
     ANTNIO - Os negcios de Estado que por ela eram sempre tratados, no permitem agora minha ausncia.
     ENOBARBO - E os negcios de que tratais aqui, s se conservam de p por vossa causa, principalmente o de Clepatra, que depende s e s de vossa permanncia.
     ANTNIO - Basta de brincadeiras. Comunica aos nossos oficiais o que intentamos. Vou me abrir com a rainha sobre as causas desta nossa partida, o assentimento 
dela esperando obter. No s a morte de Flvia com sinais mais insistentes nos concita a isso mesmo: muitas cartas de Roma, de igual modo, de pessoas dedicadas reclamam 
nossa volta. Sexto Pompeu lanou um repto a Csar; todo o imprio do mar a ele obedece. Nosso povo inconstante - cujo afeto nunca ao homem de mrito se liga, seno 
depois que o mrito est morto - j comeou a ver Pompeu, o grande, com suas dignidades, em seu filho que alto j se acha por estado e nome, mas mais ainda pelo 
gnio e sangue como o maior guerreiro se apresenta. Se a crescer continuar, os prprios flancos do mundo pe em risco. Muita coisa se acha incubada que, tal como 
os fios da crina do cavalo fabuloso, tem vida apenas, mas carece ainda do veneno da serpe. Nosso alvitre - dize a todos que esto sob as nossas ordens - ordena que 
partamos sem demora.
     ENOBARBO - Assim farei.
     (Saem.)

      
Cena III
      
O mesmo. Outro quarto. Entram Clepatra, Charmian, Iras e Alexas.
      
     CLEPATRA - Onde est ele?
     CHARMIAN - No o vejo h tempo.
     CLEPATRA - Vede onde est, que faz, quem o acompanha. No vos mandei. Se virdes que est triste, dizei que estou danando; se contente, que me vi atacada de 
mal sbito. Ide logo e voltai.
     (Sai Alexas.)
     CHARMIAN - Senhora, creio que, se lhe dedicam amor sincero, em prtica no pondes o que fora preciso para o mesmo alcanar dele.
     CLEPATRA - Como fora preciso que fizesse?
     CHARMIAN - Em tudo concordar com ele, nunca contrari-lo.
     CLEPATRA - Qual tola tu me ensinas o modo de perd-lo.
     CHARMIAN - Sede cauta; no o tenteis. Por vezes, muito cedo votamos dio ao que nos causa medo. Mas a vem Antnio.
     (Entra Antnio.)
     CLEPATRA - Aborrecida me encontro e doente.
     ANTNIO - Muito me entristece ter de comunicar-vos meu intento...
     CLEPATRA - Ajuda-me a sair, querida Charmian; sinto que vou cair. Isto no pode continuar assim por muito tempo. A natureza no resiste a tanto.
     ANTNIO - Agora, minha cara soberana...
     CLEPATRA - Por obsquio, afastai-vos mais um pouco.
     ANTNIO - Que aconteceu?
     CLEPATRA - De vosso olhar deduzo que chegaram notcias lisonjeiras. Que diz vossa mulher? Podeis ir logo. Quem me dera que ela nunca vos tivesse deixado vir; 
e, sobretudo, nunca possa dizer que eu sou quem vos retenho. Em vs no mando; sois somente dela.
     ANTNIO - Os deuses sabem muito bem...
     CLEPATRA - Oh! nunca se viu uma rainha assim trada. Mas desde o incio vi brotar a insdia.
     ANTNIO - Clepatra...
     CLEPATRA - Como posso dar-vos crdito sobre me pertencerdes de verdade, embora vossas juras abalassem o alto trono de Jove, se perjuro com relao a Flvia 
vos mostrastes? Loucura rematada, ver-se presa nas malhas dessas juras s de boca, que se quebram por si, quando enunciadas!
     ANTNIO - Rainha mui querida...
     CLEPATRA - Nada, nada de apresentar desculpas para a viagem. Dizei adeus e parti logo. Quando para ficar pedeis, era tempo somente de palavras; em partida 
no se falava; a eternidade tnhamos nos olhos e nos lbios; gr ventura das sobrancelhas sempre nos pendia. No havia parcela em ns, por nfima que fosse, que 
do cu no derivasse. E tudo ainda est no mesmo ponto, salvo se tu, o heri de mais destaque no mundo todo, te mudaste agora no maior mentiroso.
     ANTNIO - Ento, senhora?
     CLEPATRA - Quisera ter as tuas polegadas; verias que h um corao no Egito.
     ANTNIO - Escutai-me, rainha. A mais premente necessidade exige meus servios noutro lugar, mas fica aqui convosco todo meu corao. Rebrilha ao longe nossa 
Itlia com os gldios de seus filhos; junto ao porto de Roma j se encontra Sexto Pompeu. As foras balanadas de dois ncleos nativos alimentam dissenso cautelosa. 
Quem odiado era at h pouco, forte se tornando, passou a ser amado pelo povo. O proscrito Pompeu, rico das honras paternas, na afeio sabe insinuar-se dos que 
no estado atual no prosperaram, cujo nmero  enorme. Pela inrcia tornada doente, a paz procura alvio em qualquer variao desesperada. O motivo pessoal que me 
preocupa, mas que perante vs me justifica,  o da morte de Flvia.
     CLEPATRA - Embora a idade no me preservasse, de todo, da loucura, pelo menos credulidade no me deu de criana. Flvia pode morrer?
     ANTNIO - Morreu, rainha. L isto, e no teu cio soberano fica sabendo quanta barafunda pde ela suscitar. Por fim, inteira-te de como ela morreu e onde foi 
isso.
     CLEPATRA - Oh mui fingido amor! Onde se encontram os vasos sacrossantos que devias encher com tuas lgrimas doloridas? Agora vejo, vejo pela morte de Flvia 
como vai ser recebida a notcia da minha.
     ANTNIO - Parai logo com essas objees e preparai-vos para ficar sabendo meu intento, que ficar de p ou vem abaixo, conforme resolverdes. Pelo fogo que anima 
o lodo do sagrado Nilo, parto daqui soldado teu ou servo; guerra farei, ou paz, como quiseres.
     CLEPATRA - Charmian, desata-me este lao; vamos! No; deixa. Sinto-me depressa doente e boa a um tempo.  assim o amor de Antnio.
     ANTNIO - Por obsquio, rainha incomparvel, acreditai no amor que ele vos vota, pois resiste a uma prova muito honrosa.
     CLEPATRA -  o que Flvia me ensina. Por obsquio, ide chor-la a um canto. Dirigi-me, depois, as despedidas, declarando que ao Egito essas lgrimas pertencem. 
Vamos; representai mais uma cena de excelente dissmulo, fazendo-a passar por mostras da mais alta fama.
     ANTNIO - Com isso me esquentais o sangue. Chega.
     CLEPATRA - Podeis fazer melhor; mas isso basta.
     ANTNIO - Por minha espada...
     CLEPATRA - E pelo meu escudo... Melhorou, mas ainda falta muito. Charmian, v como assentam bem nesse Hrcules romano os surtos de uma grande clera.
     ANTNIO - Senhora, vou deixar-vos.
     CLEPATRA - Delicado senhor, uma palavra.  necessrio que aqui nos separemos... No; no  isso. Senhor, j nos amamos... No; no  isso. Tudo isso vs sabeis, 
e alguma coisa foi por minha vontade. Oh! que memria!  um verdadeiro Antnio! Esqueci tudo.
     ANTNIO - Se o capricho no fosse vosso sdito, diria que sois ele em carne e osso.
     CLEPATRA - Trabalho cansativo  trazer sempre junto do corao um tal capricho, como Clepatra faz. Mas desculpai-me, senhor, porque me causa a morte tudo 
que em mim vai bem, mas no vos causa agrado. A honra vos chama; assim, continuai mudo para minha tolice irremedivel. E que todos os deuses vos escoltem. Que a 
lurea da vitria carregada seja por vosso gldio e que o brando xito de flores atapete vossa estrada.
     ANTNIO - Partamos logo. Nossa despedida desta maneira foge e permanece: aqui permanecendo, vais comigo; eu, fugindo de ti, fico contigo. Em caminho!
     (Saem.)

      
Cena IV
      
Roma. Um quarto em casa de Csar. Entram Otvio Csar, Lpido e criados.
      
     CSAR - Lpido, podeis ver e, doravante, sabendo ficareis que no  vcio prprio de Csar odiar o nosso grande competidor. De Alexandria so estas as notcias: 
ele pesca, bebe e consome as lmpadas da noite em contnuas orgias; no se mostra mais viril do que Clepatra, nem esta - viva de Ptolomeu - efeminada tambm  
mais do que  ele. Raramente d audincia ou condescende em recordar-se de que ainda tem colegas. Nele vedes um indivduo que os defeitos todos dos homens compendia.
     LPIDO - A convencer-me no chego de que possa haver defeitos bastantes para obnubilar-lhe os traos nativos de bondade. Nele as faltas so como as manchas 
que no cu se vem, no contraste das trevas mais terrveis, que ele mudar no pode, sendo fora seguir-lhes o pendor.
     CSAR - Sois indulgente por demais. Admitamos que no haja grande mal em no tlamo deitar-se de Ptolomeu, em dar um reino em troco de uma pilhria, em se sentar 
ao lado de um escravo e beber com ele  roda, cambalear pelas ruas a desoras e trocar socos com qualquer labrego que fede a suor... Dizei-me que isso lhe orna - 
conquanto deva ser muito estranhvel a natureza que no sai manchada de semelhantes atos. - Mas  certo que no se justifica dos defeitos, porque sobre ns pesa 
todo o fardo de sua leviandade. Se o cio ele enche com a volpia, ter de justar contas com a saciedade e a consumpo dos ossos. Mas malgastar o tempo que o desperta 
dos prazeres com toques de rebate, e que to alto como a ns. lhe fala do dever a cumprir,  revelar-se merecedor de justa reprimenda, como criana de saber maduro 
que por fugaz prazer empenha todas as lies do passado e se rebela contra a prpria razo.
     (Entra um mensageiro.)
     LPIDO - Mais novidades.
     MENSAGEIRO - Executadas foram tuas ordens,  muito nobre Csar. De hora em hora novas recebers do que se passa l por longe. Pompeu domina os mares, parecendo 
que  amado por aqueles que s temiam Csar. Para os portos os descontentes correm, comentando todos que ele sofreu grande injustia.
     CSAR - Fcil me fora tal coisa ter previsto. Ensina-nos a histria desde o incio do tempo que quem , s e querido at chegar a ser, e que a pessoa que se 
acha no declnio e que no fora prezada enquanto dgna era de s-lo, grata se torna por estar ausente. Essa turba sem nome se assemelha aos sargaos que biam na 
corrente, sem direo nenhuma, servos sempre da varivel mar e que com o prprio movimento se esfazem.
     MENSAGEIRO - Csar, trago-te a nova de que Menas e Mencrates, corsos de alto valor, o mar obrigam a obedecer-lhes, que com muitas quilhas eles lavram, abrindo 
fundos sulcos. Feros assaltos do por toda a Itlia; os moradores da orla ficam plidos s de pensar em tal; a mocidade valorosa se insurge. Nenhum barco pode sair 
do porto; sendo visto, tomado  incontinenti, pois s o nome de Pompeu pode mais do que sua prpria campanha organizada.
     CSAR - Antnio, deixa teus banquetes lascivos! Quando, h tempo, foste expulso de Mdena por teres morto Hirto e Pansa, cnsules, a fome seguiu-te os calcanhares. 
Mas lutaste com ela, muito embora sempre vida tivesses dissipada, revelando resistncia maior que a de um selvagem. Urina de cavalo ento bebeste e o charco cintilante 
que refugam os prprios animais. No desdenhava teu paladar o mais azedo fruto das mais silvestres sebes. Como o cervo, quando a neve recobre todo o pasto, chegaste 
a roer das rvores a casca. Nos Alpes, dizem, de uma carne estranha te alimentaste que causava a muitos a morte s de ver. E todas essas privaes - a lembrana 
delas a honra te aoita neste instante - suportaste-as como brioso soldado, de tal modo que nem murchas as faces te ficaram.
     LPIDO - D pena.
     CSAR - Que depressa o chame a Roma seu prprio brio, pois  mais que tempo de na campanha aparecermos juntos. Para esse fim reunamos o conselho. Lucra Pompeu 
com nossa ociosidade.
     LPIDO - Amanh, Csar, poderei dizer-vos com segurana at que ponto chegam minhas foras de mar e terra para fazer face  presente situao.
     CSAR - At nos vermos, vou fazer o mesmo. Adeus.
     LPIDO - Adeus, senhor. O que souberdes sobre as desordens que se do l fora, far-me-eis grande obsquio revelando-mas.
     CSAR - Ficai tranqilo, meu senhor, sobre isso; conheo meu dever.
     (Saem.)

      
Cena V
      
Alexandria Um quarto no palcio. Entram Clepatra, Charmian, Iras e Mardian.
      
     CLEPATRA - Charmian!
     CHARMIAN - Senhora?
     CLEPATRA - Ah! Quero beber mandrgora.
     CHARMIAN - Mandrgora, senhora? Para qu?
     CLEPATRA - Para que possa passar dormindo toda a grande brecha de tempo em que est ausente o meu Antnio.
     CHARMIAN - Pensais por demais nele.
     CLEPATRA - Ele traiu-me!
     CHARMIAN - No penso assim, senhora.
     CLEPATRA - Eunuco Mardian!
     MARDIAN - Agora que deseja Vossa Alteza?
     CLEPATRA - No te ouvir cantar hoje. No me agrada quanto os eunucos tm.  muito grande felicidade, sendo destitudo, como s, do sexo, no fugirem nunca 
do Egito teus vadios pensamentos. Acaso tens desejos?
     MARDIAN - Sim, senhora.
     CLEPATRA - De fato?
     MARDIAN - Assim, de fato, no senhora; pois s me  permitido agir de modo perfeitamente honesto. Mas desejos tenho ardorosos e reflito sempre em quanto Marte 
praticou com Vnus.
     CLEPATRA -  Charmian! Onde  que pensas que ele esteja neste momento? Est de p? Sentado? Passeia, porventura? Est a cavalo?  ginete feliz, por carregares 
todo o peso de Antnio! Oh, s brioso, corcel! No adivinhas quem te monta? O meio Atlas da terra, o brao e o elmo dos homens. Neste instante ele murmura: "Acaso 
onde estar minha serpente do velho Nilo?"  assim que ele me chama. Agora vivo de um veneno raro. De mim se lembrar, que os amorosos raios do ardente Febo enegreceram 
e que enrugada vai deixando o tempo? Csar de fronte larga, quando neste solo estiveste eu era apetecvel para qualquer monarca, tendo o grande Pompeu parado para 
olhar-me a fronte. Ali quisera ele ancorar os olhos E morrer contemplando a prpria vida.
     (Entra Alexas.)
     ALEXAS - Soberana do Egito, salve!
     CLEPATRA - Como com Marco Antnio no pareces nada! Mas vindo de sua parte, essa tintura das tinturas te fez ficar dourado. Como passa meu bravo Marco Antnio?
     ALEXAS - Querida soberana, a ltima coisa que ele fez foi beijar - depois de muitos beijos dobrados - esta rica prola. Trago no corao suas palavras.
     CLEPATRA - De l ho de tir-las meus ouvidos.
     ALEXAS - "Caro amigo", falou, "o fiel Romano, dize-lhe, envia  majestade egpcia este tesouro que provm de uma ostra. Para a insignificncia do presente compensar, 
a seus ps pretendo reinos acumular, para deixar mais rico seu opulento trono. Todo o Oriente, lhe dirs, vai chamar-lhe soberana." Ao concluir, acenou-me, e, altivamente, 
subiu para o seu rpido ginete, cujo nitrido ressoou to forte que brutalmente abafa tudo quanto eu pudesse dizer.
     CLEPATRA - Como estava ele: alegre ou triste?
     ALEXAS - Parecia o tempo que medeia entre os dois extremos do ano, de calor e de frio. No estava nem alegre nem triste.
     CLEPATRA - Oh equilibrada disposio! Atenta nisso, Charmian; observa bem:  o homem. Toma nota. Triste no se encontrava, pois queria lanar luz sobre quantos 
a postura pautam segundo a dele. Nem alegre, parecendo indicar que o pensamento tinha no Egito, onde a alegria estava. Mas entre os dois. Oh celestial mistura! Fiques 
alegre ou triste... Em nenhuma outra pessoa, como em ti, to bem assenta qualquer desses extremos. Encontraste meus correios, acaso?
     ALEXAS - Sim, senhora; uns vinte, em separado. Por que os mandas to amide?
     CLEPATRA - Quem nascer no dia em que eu a Antnio no mandar recado, morrer na misria. Boa Charmian, traze tinta e papel. Bondoso Alexas, sejas bem-vindo. 
Em algum tempo, Charmian, eu amei Csar tanto?
     CHARMIAN - Oh! bravo Csar!
     CLEPATRA - Que um outro grito desses te asfixie. Dize: Que bravo Antnio!
     CHARMIAN - Grande Csar!
     CLEPATRA - Por tais, ficars com os dentes rubros, se novamente comparares Csar com esse homem nico.
     CHARMIAN - Com vosso perdo gracioso, mas estou cantando segundo vosso tom.
     CLEPATRA - Oh inexperincia de minha mocidade, quando verde eu tinha o juzo e frio o sangue! Vamos: d-me papel e tinta. Hei de mandar-lhe um mensageiro dirio, 
embora venha a despovoar o Egito.
     (Saem.)

      
ATO II
Cena I
      
Messina. Um quarto em casa de Pompeu. Entram Pompeu, Mencrates e Menas.
      
     POMPEU - Se os deuses poderosos forem justos, ho de amparar quem se mostrar mais justo.
     MENCRATES - Como sabeis, digno Pompeu, demora no  recusa.
     POMPEU - Enquanto suplicamos diante do trono deles, vai ficando mais fraca a causa por que lhes pedimos.
     MENCRATES - Por nos desconhecermos, muitas vezes pedimos o que mal causar nos pode, o que as sbias potncias nos denegam, visando ao nosso bem. Assim, lucramos 
em no ver nossos votos exalados.
     POMPEU - Hei de vencer. O povo me idolatra e o mar  meu. Em progressivo aumento minhas foras esto, prognosticando-me as esperanas que elas ho de em breve 
chegar  cheia mxima. No Egito Marco Antnio est  mesa, no pensando em lutar extramuros. Onde Csar obtm dinheiro, os coraes alija. Lpido adula os dois, 
sendo por eles adulado tambm, porm no ama nenhum, pois s desprezo ambos lhe votam.
     MENAS - Lpido e Csar j em campo se acham,  frente de uma fora poderosa.
     POMPEU - Quem vos disse isso?  falsa essa notcia.
     MENAS - De Slvio a ouvi, senhor.
     POMPEU - Est sonhando. Sei que eles dois em Roma agora se acham e a Antnio esperam. Que os encantos todos do amor, ardente Clepatra, te deixem mais macios 
ainda os lbios murchos! Acrescenta a magia  formosura, e s duas a lascvia. O libertino deixa preso num campo de festejos, a mente lhe mantendo sempre em nvoas. 
Despertem-lhe o apetite cozinheiros epicreos, com molhos esquisitos, e que o sono e os festins lhe arrastem a honra at a apatia ele alcanar do Lete. (Entra Vrrio.) 
Ento, Vrrio, que  que h?
     VRRIO -  inteiramente certo o que vou dizer. Em Roma espera-se Marco Antnio chegar a cada instante. O tempo desde o dia da partida dele do Egito dava para 
viagem mais longa ainda.
     POMPEU - De bom grado ouvira notcias menos grave. No pensava, Menas, que esse amoroso libertino chegasse a pr o capacete para ingressar numa guerra to mesquinha. 
Como guerreiro, ele sozinho pesa mais do dobro dos outros dois reunidos. Mas elevemos o conceito prprio, por ver que nossa espora teve fora para arrancar dos braos 
da viva do Egito a Marco Antnio, esse devasso que jamais se sacia.
     MENAS - No espero que Antnio e Csar a entender-se venham.A falecida esposa do primeiro ofendeu muito a Csar; o irmo dele tambm o combateu, embora eu pense 
que nisso Antnio no tivesse parte.
     POMPEU - No sei, Menas, no sei como as pequenas inimizades do lugar s grandes. No fosse termos de lutar com todos, bom fora que eles entre si brigassem, 
pois motivo no falta a nenhum deles para sacar da espada. Mas at onde poder o medo que lhes inspiramos cimentar a ciso que entre eles houve e liga pr em suas 
rixazinhas, no sei diz-lo. Seja tudo como quiserem nossos deuses. Nossa vida vai depender, to-s, desta partida. Menas, vamos!
     (Saem.)

      
Cena II
      
Roma. Um quarto em casa de Lpido. Entram Enobarbo e Lpido.
      
     LPIDO - Caro Enobarbo,  obra meritria, dgna de vs, levar o vosso chefe a falar com bons modos.
     ENOBARBO - Convenc-lo pretendo a responder como ele mesmo. Se Csar o irritar, que Antnio o mire sobranceiro e depois to alto fale como o estrondo de Marte. 
Sim, por Jpiter, se eu fosse o portador da barba dele, hoje a no rasparia.
     LPIDO - No  tempo de briguinhas pessoais.
     ENOBARBO - No; qualquer tempo serve para os assuntos dele prprio.
     LPIDO - Mas  preciso que os assuntos mnimos cedam lugar aos grandes.
     ENOBARBO - No, no caso de haverem sido aqueles os primeiros.
     LPIDO - Em vs fala a paixo. Mas, por obsquio, no sopreis no borralho. Ali vem vindo o nobre Antnio.
     (Entram Antnio e Ventdio.)
     ENOBARBO - E, mais adiante, Csar.
     (Entram Csar, Mecenas e Agripa.)
     ANTNIO - Se fizermos aqui um bom acordo: contra os partos. Ouviste bem, Ventdio?
     CSAR - No sei, Mecenas; pergunta isso a Agripa.
     LPIDO - Caros amigos, de importncia mxima era o que nos uniu; no permitamos que uma ao secundria nos separe. O que estiver errado, com pacincia dever 
ser ouvido. Se elevarmos a voz para tratar de assuntos dirios, causaremos a morte do que tnhamos inteno de curar. Por isso, nobres colegas, vos conjuro instantemente 
a que trateis dos pontos mais difceis com termos delicados, sem deixardes que se imiscua a ofensa.
     ANTNIO - Bem falado; em frente a nossas foras, no momento de se iniciar a pugna, no seria outra a minha linguagem.
     CSAR - Sois bem-vindo a Roma.
     ANTNIO - Agradecido.
     CSAR - Sentai-vos.
     ANTNIO - Sentai-vos, senhor.
     CSAR - Ento, que seja.
     ANTNIO - Soube que muitas coisas vos parecem ms, sem que o sejam, mas que, embora o fossem, no vos dizem respeito.
     CSAR - Merecia que de mim rissem, se por coisa alguma, por quase nada, eu me considerasse to ofendido assim, principalmente com relao a vs; e mais ainda 
fora de censurar se com desprezo viesse a nomear-vos, quando no tivesse razes para citar o vosso nome.
     ANTNIO - Que  que tnheis que ver, Csar, com minha permanncia no Egito?
     CSAR - Nada, decerto, se, estando eu em Roma, residsseis no Egito. Mas no caso de em meu Estado influirdes l do Egito, muito me importa o ponto em que morardes.
     ANTNIO - Que entendeis por influir?
     CSAR - Ser-vos- fcil atinar com o sentido, refletindo com o que se tem passado. Vossa esposa com vosso mano me fizeram guerra; reis o tema do debate deles, 
a senha de combate.
     ANTNIO - Comeastes por um caminho errado, pois o mano no me envolveu jamais em seus negcios. Investiguei o caso e fidedignas informaes obtive de pessoas 
que por vs se bateram. No  fato que ele prejudicou tanto o meu crdito como o vosso, e fez guerra de igual modo contra mim, que amparava vossa causa? De tudo 
isso ficastes inteirado por minhas vrias cartas. Se quiserdes forjicar uma briga a toda fora, tereis de procurar outro pretexto, que esse j no vos serve.
     CSAR - Elogiais-vos com me imputardes raciocnio errado; mas isso  forjicar, to-s, desculpas.
     ANTNIO - De forma alguma! No! Tenho certeza de que no careceis da perspiccia precisa para compreender que eu, sendo como sou, vosso aliado numa causa por 
ele combatida, no podia lanar olhares meigos a essas guerras que a prpria paz ameaar me vinham. Quanto  minha consorte, desejara que seu esprito encontrsseis 
noutra. Vosso  um tero do mundo, pela rdea podereis dirigi-lo, o que  impossvel com uma mulher daquelas.
     ENOBARBO - Oh! se todos esposa assim tivssemos! Iriam para a guerra os maridos e as consortes.
     ANTNIO - Inflexvel como era - seus tumultos, Csar, nasciam do temperamento - no lhe faltando astcia -  com tristeza que o confesso tambm - vos foi motivo 
de grande inquietao. Porm sobre isso s vos cabe dizer que eu no podia alterar coisa alguma.
     CSAR - Enviei-vos cartas, quando em Alexandria vos achveis, num rega-bofe eterno; mas puseste-las no bolso sem as ler e com sarcasmos despachastes da audincia 
o meu correio.
     ANTNIO - Ele me surpreendeu sem ser chamado, quando trs reis eu recebia  mesa. Faltava-me a disposio que eu tinha pela manh. Mas logo no outro dia eu 
mesmo lhe falei, o que eqivale a apresentar desculpas. Que esse tipo em nada influa em nossa divergncia. Se de brigar tivermos, afastai-o de nossas dissenses.
     CSAR - No mantivestes o juramento feito, o de que nunca podereis acusar-me.
     LPIDO - Mais brandura, Csar!
     ANTNIO - Deixai-o, Lpido. Sagrada  a honra a que ele se refere e de que me presume carecente. Vamos, Csar: qual foi o juramento?
     CSAR - De vir em meu auxlio com soldados e numerrio, quando vos pedisse, o que me recusastes.
     ANTNIO - Melhor fora dizer: negligenciei; e isso na fase em que horas venenosas me deixavam privado da conscincia de mim mesmo. Quanto em mim estiver, quero 
mostrar-vos meu arrependimento; mas a minha honestidade diminuir no h de minha grandeza, como sem aquela no h de o meu poder mostrar-se nunca.  verdade que 
Flvia, para atrair-me do Egito, aqui fez guerra. Tendo eu sido disso a causa inocente, peo escusas at onde for possvel, sem desdouro, a minha honra inclinar-se.
     LPIDO - Nobre fala.
     MECENAS - Se concordardes, no leveis avante tais recriminaes, pois esquec-las de todo lembrar fora que a presente necessidade inculca paz entre ambos.
     LPIDO - Mui bem dito, Mecenas.
     ENOBARBO - Ou ento, no caso de cada um pedir, to-somente, por emprstimo, o amor do outro, fareis a devoluo devida logo que no mais ouvirdes falar de Pompeu. 
Tempo no vos h de faltar para disputas, quando no tiverdes outra coisa a fazer.
     ANTNIO - Sois um soldado, apenas; ficai quieto.
     ENOBARBO - Ia-me esquecendo de que a verdade no pode falar.
     ANTNIO - Perturbais a conversa. Assim, calai-vos.
     ENOBARBO - Ento, que seja. Vossa pedra pensante.
     CSAR - O que me desagrada em sua fala no  o assunto, mas o modo, apenas, de apresent-lo. Assim, no  possvel continuarmos amigos, quando temos maneira 
de viver to diferente. Se eu conhecesse, ao menos, a cadeia que poderia conservar-nos juntos, de um plo a outro iria procur-la.
     AGRIPA - Csar, d-me licena.
     CSAR - Fala, Agripa.
     AGRIPA - Tens uma irm do lado teu materno, a admirvel Otvia. No se encontra vivo agora o grande Marco Antnio?
     CSAR - No digais isso, Agripa, pois se Clepatra vos ouvisse, tereis merecido a pecha receber de temerrio.
     ANTNIO - Mas eu no sou casado, Csar. Vamos ouvir Agripa.
     AGRIPA - Para em amizade perptua vos manter, irmos deixar-vos e os coraes num lao indissolvel vos trazer sempre, tome Antnio a Otvia por consorte. A 
beleza que lhe  prpria pede para marido o melhor homem; seus dotes naturais e a graa inata falam melhor do que qualquer linguagem. Com esse casamento as pequeninas 
invejas que ora nos parecem grandes, e os grandes medos, que perigo inculcam, a nada se reduzem. As verdades parecero histria, ao passo que hoje meias histrias 
passam por verdades. O amor que ela vota a ambos, um para o outro h de atrair, enquanto vosso afeto para ela vos inclina. Mas perdoai-me quanto vos disse.  um 
plano meditado maduramente, no fugaz capricho.
     ANTNIO - A isso que diz Csar?
     CSAR - Nada, enquanto no se certificar at onde Antnio abalado se tenha com essa idia.
     ANTNIO - E que poder Agripa tem, no caso de eu lhe dizer: "Pois assim seja, Agripa!" para bom termo dar a esse projeto?
     CSAR - Todo o poder de Csar e a influncia deste junto de Otvia.
     ANTNIO - Nunca eu possa levantar objees, nem mesmo em sonhos contra uma idia to encantadora! D-me a mo; leva avante esse projeto gracioso e que, a partir 
deste momento, um corao de irmos dirija os nossos sentimentos e nossos grandes planos.
     CSAR - Eis minha mo. Mais ternamente nunca irm nenhuma foi amada como a que ora vos entrego. Que ela viva para que o corao nos una e os remos, no vindo 
nunca mais a abandonar-nos nosso sincero amor.
     LPIDO - Amm! Amm!
     ANTNIO - No pensei em sacar de novo a espada contra Pompeu, porque recentemente tem ele a meu respeito dado provas de estranha cortesia. Vou mandar-lhe meus 
agradecimentos, porque minha memria no padea vituprio. Mas, logo aps, pretendo desafi-lo.
     LPIDO - O tempo nos concita a procurarmos Pompeu se no quisermos que ele venha para nos dar combate.
     ANTNIO - Onde est ele?
     CSAR - Junto ao monte Miseno.
     ANTNIO - J so grandes suas foras de terra?
     CSAR - J so grandes e sempre em crescimento; mas das guas  senhor absoluto.
     ANTNIO - A fama  essa. Se lhe houvesse falado! H muita pressa. Antes, porm, de nos armarmos, vamos arrematar o assunto de que h pouco nos ocupamos.
     CSAR - Sim, com todo o gosto. Convido-vos a visitar a mana, para a casa de quem vou conduzir-vos.
     ANTNIO - No nos priveis de vossa companhia, Lpido.
     LPIDO - No, Antnio, nem doena poderia reter-me.
     (Fanfarra. Saem Csar, Antnio e Lpido.)
     MECENAS - Sede bem-vindo, senhor, de vossa viagem ao Egito.
     ENOBARBO - Metade do corao de Csar, digno Mecenas! Meu virtuoso amigo Agripa!
     AGRIPA - Valente Enobarbo!
     MECENAS - Temos razo para nos alegrarmos, por se terem as coisas resolvido to bem. A vida vos corria bem l no Egito.
     ENOBARBO - Perfeitamente, senhor; dormamos o dia todo e iluminvamos a noite com patuscadas.
     MECENAS - Oito javalis selvagens, assados inteirinhos, para almoo de doze pessoas!  verdade isso?
     ENOBARBO - Isso  como um mosquito ao lado de uma guia. Com relao a festanas tivemos histrias muito mais gigantescas do que essa, que mereciam ser contadas.
     MECENAS - A serem verdadeiros os rumores,  uma mulher extraordinria.
     ENOBARBO - Empalmou o corao de Marco Antnio no primeiro encontro que teve com ele, no rio Cidno.
     AGRIPA - Sim, foi l, realmente, que ela lhe apareceu, se  que meu informante no mentiu nesse ponto.
     ENOBARBO - Vou contar-vos. A barca em que ela estava, trono flgido, as guas incendiava; sua popa era de ouro batido; as velas, prpura, e a tal ponto cheirosas, 
que vencidos de amor os ventos todos se mostravam. Eram de prata os remos, que ao compasso se moviam de flautas, apressando com seus golpes as guas percutidas, 
como amorosas deles. Com respeito a ela prpria, mendiga aqui se torna a melhor descrio. Deitada estava num pavilho todo tecido de ouro, vencendo a prpria Vnus, 
em que vemos a arte passar de muito a natureza. Ao lado dela estavam dois meninos rechonchudos e lindos - sorridentes Cupidos - que agitavam ventarolas de mil cores 
cambiantes, cujo sopro parecia deixar muito mais vivo o rubor de suas faces delicadas, que acalmar se propunha, desfazendo, dessa maneira, a um tempo, o que fazia.
     AGRIPA - Que jia para Antnio!
     ENOBARBO - Qual nereidas, suas damas, sereias numerosas, dos olhos dela o olhar nunca apartavam, em adorno tomando seus meneios. Uma sereia, ao parecer legtima, 
o leme dirigia, cujas cordas argentinas se inflavam ao contacto daquelas mos de rosa que com tanto donaire a dura obrigao faziam. De toda a barca se evolava estranho 
e invisvel perfume, que os sentidos tonteava dos embarcadouros prximos. A cidade lanou para ela toda sua populao, tendo em seu trono ficado Antnio, s, na 
praa pblica, a sibilar para o ar, que se no fora ter modo de fazer um grande vcuo, tambm correra para ver Clepatra e um buraco no mundo ocasionara.
     AGRIPA - Extraordinria egpcia!
     ENOBARBO - Quando em terra tocou a barca, um mensageiro Antnio lhe mandou com o convite para o almoo, ao que ela replicou que melhor fora que hspede dela 
Antnio se tomasse, tendo nisso insistido. Nosso afvel Antnio, de quem nunca uma senhora ouviu o termo "No", tendo-se feito barbear mais de dez vezes, foi  festa, 
com o corao, como de praxe, havendo pago tudo o que os olhos devoraram.
     AGRIPA - Que real rameira! Fez que o grande Csar no leito dela depusesse a espada. Ele a lavrou, mas dela foi a safra.
     ENOBARBO - De certa vez a vi saltar cinqenta passos, no mais, na rua. Tendo o flego perdido, estaca, quer falar, arqueja, e em graa transformando a deficincia 
esbaforida se revela forte.
     MECENAS - Antnio agora h de esquecer-se dela.
     ENOBARBO - Jamais! No far isso. No a deixa fanada o tempo, nem sua variedade maravilhosa poder tornar-se, com o hbito, sedia. Qualquer outra mulher farta 
o apetite a que d pasto; mas ela quanto mais der alimento, mais a fome desperta. As mais abjetas coisas assentam nela de tal modo que os sacerdotes santos a abenoam, 
quando ela est lasciva.
     MECENAS - Se beleza, modstia, discrio prender puderem o corao de Antnio,  a sorte grande para ele vir a desposar Otvia.
     AGRIPA - Vamos. Caro Enobarbo, ficais sendo hspede meu, enquanto aqui estiverdes.
     ENOBARBO - De todo o corao vos agradeo.
     (Saem.)

      
Cena III
      
O mesmo. Um quarto em casa de Csar. Entram Csar e Antnio; entre eles, Otvia; criados.
      
     ANTNIO - O mundo e meu dever, algumas vezes de vossos braos me faro ausente.
     OTVIA - Todo esse tempo, ento, diante dos deuses ho de dobrar-se meus joelhos, para pedir por vosso bem.
     ANTNIO - Senhor, boa noite. Minha Otvia, no leias meus defeitos nos rumores do mundo. No me tenho mantido na medida; doravante, porm, tudo farei conforme 
a regra. Boa noite, cara esposa.
     OTVIA - Boa noite, meu senhor.
     CSAR - Boa noite.
     (Saem Csar e Otvia.)
     (Entra o adivinho.)
     ANTNIO - Ento, maroto, retornar quisreis agora para o Egito?
     ADIVINHO - Melhor fora que eu de l no me houvesse retirado, nem vs daqui.
     ANTNIO - Vossas razes, se as tendes?
     ADIVINHO - No meu ntimo as vejo, no as trago, por enquanto, na lngua. Mas depressa retornai para o Egito.
     ANTNIO - Revelai-me quem h de ter mais elevada sorte: Csar ou eu?
     ADIVINHO - Ah! Csar. Por isso mesmo, Antnio, no prossigas ao lado dele. Teu demnio - o esprito, digo, que te protege -  corajoso, nobre, alto, incomparvel, 
quando perto no se encontra o de Csar. Mas quando ele se aproxima do teu, este se mostra tomado de pavor, como vencido. Assim, deixa que entre ambos vs espao 
bastante se interponha.
     ANTNIO - No me tornes a falar nisso.
     ADIVINHO - A mais ningum eu falo; s quando estamos ss. Se te empenhares com ele em qualquer jogo, no h dvida de que a perder virs. Naturalmente tem mais 
sorte que tu, vindo a vencer-te contra quaisquer vantagens que possuas. Teu esprito, tomo a prevenir-te, dirige-te com medo junto dele; longe dele, porm, volta 
a ser nobre.
     ANTNIO - Podes te retirar. Dize a Ventdio que desejo falar-lhe. (Sai o adivinho.) Para a Prtia ter de seguir logo... Seja acaso, seja por meio de arte, 
falou certo. Os prprios dados lhe obedecem sempre; em nossas justas minha habilidade ao lance acidental se dobra dele; se tiramos a sorte, ganha sempre; meus galos 
sempre perdem para os dele, a despeito de todos os prognsticos, e sua codorniz bate na rinha sempre a minha, apesar das desvantagens. Vou voltar para o Egito. Muito 
embora tenha levado a cabo o casamento para ter paz, no Oriente  que se encontra toda minha ventura. (Entra Ventdio.) Oh! vinde logo, Ventdio! Seguireis j para 
a Prtia. Est pronta a ordem; vinde receb-la.
     (Saem.)

      
Cena IV
      
O mesmo. Uma rua. Entram Lpido, Mecenas e Agripa.
      
     LPIDO - Deixai de vos incomodar com isso. Por obsquio, segui logo no rasto de vossos generais.
     AGRIPA - Marco Antnio, senhor, deseja apenas beijar Otvia. Seguiremos logo.
     LPIDO - Adeus, adeus, at que vos reveja com vestes de guerreiro, que vos h de assentar muito bem.
     MECENAS - Pelo que posso conjeturar da viagem, chegaremos primeiro do que vs ao cabo, Lpido.
     LPIDO - Vossa rota  menor, porque meus planos me obrigam a uma volta; certamente alcanareis dois dias de vantagem.
     MECENAS e AGRIPAS - Senhor, feliz sucesso!
     LPIDO - Adeus.
     (Saem.)

      
Cena V
      
Alexandria. Um quarto no palcio. Entram Clepatra Charmian, Iras, Alexas e um criado.
      
     CLEPATRA - Dai-me msica, msica, alimento triste de todos os que o amor mantm.
     CRIADO - Ol, msica!
     (Entra Mardian.)
     CLEPATRA - No; deixemos isso. Vamos para o bilhar. Segue-me, Charmian.
     CHARMIAN - O brao me incomoda. Por obsquio, jogai com Mardian.
     CLEPATRA - Tanto faz ser nosso parceiro uma mulher como um eunuco. Vamos, senhor: quereis jogar comigo?
     MARDIAN - Quanto em mim estiver, minha senhora.
     CLEPATRA - Quando h boa vontade, embora saia tudo aqum de qualquer expectativa, desculpa-se ao ator. Mas j no quero. Traze-me a vara de pescar e vamos 
para a margem do rio. Ali, ouvindo msica ao longe, surpreenderei peixes de escuras barbatanas. Com meu curvo gancho atravessarei suas viscosas mandbulas, e, na 
hora de tir-los da gua, imaginarei que cada um deles  outro Antnio e lhe direi: "Peguei-te!"
     CHARMIAN - Como eram divertidas as apostas que com ele fazeis, quando vosso mergulhador prendia no anzol dele qualquer peixe do mar que ele, mui sfrego, puxava 
logo!
     CLEPATRA - Nesse tempo - oh tempo! - eu ria dele de deix-lo fulo, e  noite eu ria para acomod-lo, e na manh seguinte, antes das nove, j o tinha emborrachado 
de tal modo, que se punha a dormir com meus vestidos, enquanto eu punha  cinta sua espada vencedora em Filipos. (Entra um mensageiro.)  da Itlia. Finca-me nos 
ouvidos as notcias que me trouxeste, pois h muito tempo sem trato eles esto.
     MENSAGEIRO - Minha senhora...
     CLEPATRA - Morreu Antnio? Se disseres isso, biltre, assassinars tua senhora. Mas com sade e livre... Se o trouxeres assim, aqui tens ouro e aqui tens minha 
mo de veias azuis para a beijares, esta mo em que reis bebericaram, beijando-a com temor.
     MENSAGEIRO - Primeiramente, senhora, ele est bem.
     CLEPATRA - Toma mais ouro. Mas olha l, maroto! toma nota: costumamos dizer dos mortos isso. Se for esse o sentido, este ouro todo, mandarei derret-lo e derram-lo 
por essa goela de ruins notcias.
     MENSAGEIRO - Boa senhora, ouvi-me.
     CLEPATRA - Estou ouvindo. Vamos, prossegue! Mas no tens no rosto nada de bom. Se Antnio se acha livre, por que assume feies assim to cidas o trombeteiro 
de notcias boas? Se no estiver bem, vens como Fria coroada de serpentes, no como homem.
     MENSAGEIRO - No quereis escutar-me?
     CLEPATRA - S tenho mpeto de te bater antes de me falares. Se disseres, porm, que Antnio vive, que est bem de sade, vive em termos amistosos com Csar, 
no estando como seu prisioneiro, chuva de ouro farei cair em ti, seguida de uma saraivada de prolas.
     MENSAGEIRO - Senhora, ele est bem.
     CLEPATRA - Muito bem dito.
     MENSAGEIRO - E em bons termos com Csar.
     CLEPATRA - s um bravo.
     MENSAGEIRO - Ele e Csar jamais foram to ntimos.
     CLEPATRA - Basta quereres, para seres rico.
     MENSAGEIRO - Contudo...
     CLEPATRA - No me agrada esse "contudo"; estraga todo o bem que disseste antes. Para longe o "contudo!" Esse "contudo"  como um carcereiro que liberta da 
priso algum monstro criminoso. Amigo, por favor, despeja logo nos meus ouvidos tuas novidades, as boas e as ruins, ao mesmo tempo. Amigo ele  de Csar, j o disseste; 
est bem de sade e acrescentaste que se acha livre.
     MENSAGEIRO - Livre? Oh! no, senhora! A Otvia se acha preso.
     CLEPATRA - De que jeito?
     MENSAGEIRO - Do melhor jeito que encontrar na cama.
     CLEPATRA - Charmian, no fiquei plida?
     MENSAGEIRO - Senhora, casou-se com Otvia.
     CLEPATRA - Que em ti caia a mais nociva peste!
     (Bate-lhe.)
     MENSAGEIRO - Boa dama, tende pacincia.
     CLEPATRA - Que disseste? Fora! (Bate-lhe de novo.) Fora daqui, vilo abominvel! se no quiseres que te trate os olhos como se fossem bolas de desporto. Vou 
deixar-te a cabea sem cabelos. (Sacode-o pelos cabelos.) com arame tranado azorragar-te, pr-te em salmoura, vivo, para em molho de dores definhares.
     MENSAGEIRO - Mui graciosa senhora, trouxe apenas a notcia, no fiz o casamento.
     CLEPATRA - Dize que isso no  verdade e te farei presente de uma provncia, alm de tua sorte deixar envaidecida. Essas pancadas que recebeste valem como 
multa por me haveres a clera agitado. Mais, ainda: dar-te-ei todos os mimos com que possa sonhar tua modstia.
     MENSAGEIRO - Senhora, est casado.
     CLEPATRA - Miservel, j viveste demais!
     (Saca de um punhal.)
     MENSAGEIRO - Vou j safar-me. Senhora, que pensais? No tenho culpa. (Sai.)
     CHARMIAN - Boa senhora, no percais a calma. Esse homem  inocente.
     CLEPATRA - O raio atinge a muitos inocentes. Que o Nilo trague o Egito e se transformem em serpes todas as criaturas dceis. Chama de novo o escravo, que eu 
no mordo, conquanto esteja louca. Traze-o logo.
     CHARMIAN - Tem receio de vir.
     CLEPATRA - No vou bater-lhe. (Sai Charmian.) Estas mos se envilecem por baterem em quem me  inferior; pois sou eu prpria que contra mim invento esses motivos. 
(Volta Charmian com o mensageiro.) Senhor, aproximai-vos. Muito embora seja honesto, no  aconselhvel trazer ruins notcias. s mensagens agradveis dai um milho 
de lnguas; mas deixai que as infaustas ocorrncias se anunciem por si, quando sentidas.
     MENSAGEIRO - Cumpri o meu dever.
     CLEPATRA - Est casado? Odiar-te mais no me ser possvel, se me disseres novamente "sim".
     MENSAGEIRO - Senhora, est casado.
     CLEPATRA - Ainda o repetes? Que os deuses te confundam.
     MENSAGEIRO - Deveria mentir, senhora?
     CLEPATRA - Oh! como o desejara! Ainda que meio Egito se alagasse, vindo a tomar-se uma cisterna cheia de serpes escamadas. Vai-te embora. Nem que de rosto 
fosses um Narciso, me serias medonho. Est casado?
     MENSAGEIRO - Perdoai-me, alteza...
     CLEPATRA - Dize: est casado?
     MENSAGEIRO - No vos zangueis com quem no vos ofende. Punir-me pelo que mandais que eu faa parece injusto. Desposou Otvia.
     CLEPATRA - Oh! que seu erro te haja transformado num miservel, ainda que no sejas o que s seguramente. Vai-te embora. Os gneros romanos que trouxeste so 
caros por demais; fica com eles; e que por eles venhas a arruinar-te.
     (Sai o mensageiro.)
     CHARMIAN - Minha querida alteza, ficai calma.
     CLEPATRA - Louvando Antnio eu desfazia em Csar.
     CHARMIAN - Muitas vezes, senhora.
     CLEPATRA - Castigada estou sendo por isso. Retirai-me daqui. Vou desmaiar. No, no  nada. Oh! Iras! Charmian! Bondoso Alexas, vai atrs desse homem e procura 
saber como  Otvia, que idade tem, seus gostos, sem que deixe de dizer de que cor tem os cabelos. Traze logo a resposta. (Sai Alexas.) Abandonamo-lo para sempre... 
Oh, bondosa Charmian! No. Embora s vezes seja como a Grgona, s vezes  outro Marte. (A Mardian.) Dize a Alexas que me venha contar a altura dela. Apiada-te de 
mim, Charmian, mas nada me fales. Leva-me para outra sala.
     (Saem.)

      
Cena VI
      
Nos arredores de Miseno. Fanfarras For um lado entram Pompeu e Menas, com trombeta e tambor; por outro, Csar, Antnio, Lpido, Enobarbo, Mecenas, com soldados em 
marcha.
      
     POMPEU - Tenho os vossos refns; tendes os meus. Conversemos, assim, antes da pugna.
     CSAR -  de vantagem conversarmos antes. Por isso mesmo enviamos por escrito, com antecipao, nossas propostas. Se pensaste sobre elas, comunica-nos se as 
consideras suficientes para deixar-te atada a espada descontente, fazendo regressar para a Siclia muitos moos viosos que viriam talvez hoje a morrer.
     POMPEU -  avs que eu falo, vs trs que constitus todo o senado, representantes nicos dos deuses: no sei porque meu pai careceria de vingadores, tendo 
filho e amigos, se o esprito de Csar, que em Filipos tanto ao bondoso Bruto perseguia, vos v agora a trabalhar por ele. Qual foi a causa que levou o plido Cssio 
 conspirao? que fez o honrado romano, o honesto Bruto, com seus cmplices armados, todos eles namorados da bela liberdade, o Capitlio banhar de sangue? Apenas 
o desejo de que no fosse algum mais do que um homem. Eis a razo que a aparelhar a minha esquadra me levou, com a qual penso disciplinar a ingratido que Roma 
lanou sobre meu pai em tudo nobre.
     CSAR - Mais devagar.
     ANTNIO - Com todas essas velas, Pompeu, amedrontar-nos no consegues. Falaremos contigo sobre as guas; em terra sabes quanto te excedemos.
     POMPEU - Em terra,  muito certo, tu me excedes na casa de meu pai. Mas como o cuco jamais constri para si mesmo, fica nela quanto puderes.
     LPIDO - Podereis ter a bondade de dizer-nos - que isso foge de nosso assunto - de que modo recebeis nossa oferta?
     CSAR - O ponto  esse.
     ANTNIO - Presso no vos fazemos: sopesai-o com vagar, se quiserdes aceit-lo.
     CSAR - E o mais que pode acontecer, no caso de quererdes tentar maior fortuna.
     POMPEU - Consiste vossa oferta em me entregardes a Siclia e a Sardenha; devo, ainda, dos piratas limpar todas as guas; concedido isso tudo, despedirmo-nos 
sem entalhos nos gldios, carregando para casa os broquis sem mossa alguma.
     CSAR, ANTNIO e LPIDO - Justamente.
     POMPEU - Ficai, ento, sabendo que ao vir aqui, disposto eu me encontrava a aceitar essa oferta. Marco Antnio, porm, encontrou meio de irritar-me. Embora 
meu louvor fique empanado por ser eu prprio que vos falo nisso, deveis lembrar-vos de que quando Csar e vosso irmo brigavam, na Siclia vossa me encontrou boa 
acolhida.
     ANTNIO - Sim, Pompeu, soube disso, e preparado j me encontrava para o pagamento dos agradecimentos que vos devo.
     POMPEU - Dai-me a mo. No pensei que poderia, senhor, vos encontrar neste momento.
     ANTNIO - As camas do Nascente so macias. Grato vos sou, no entanto, por me terdes chamado antes do tempo. Ganhei muito por ter vindo mais cedo.
     CSAR - So notveis as modificaes que em vs observo desde a ltima conversa que tivemos.
     POMPEU - No sei que contas a Fortuna adversa no rosto me escreveu; mas  certeza que em meu peito ela nunca h de insinuar-se para deixar-me o corao escravo.
     LPIDO - Feliz encontro.
     POMPEU -  assim que eu penso, Lpido. Estamos, pois, de acordo. Agora espero que este nosso contrato seja posto por escrito e selado por ns mesmos.
     CSAR -  o que faremos logo.
     POMPEU - Depois disso festejemo-nos antes de partirmos, mostrando a sorte quem vai dar comeo.
     ANTNIO - Quero iniciar, Pompeu; consente nisso.
     POMPEU - No, Antnio;  por sorte. Mas embora o primeiro sejais ou o derradeiro, vossa cozinha egpcia primorosa a perder no vir sua alta fama. Ouvi dizer 
que o nosso Jlio Csar s de comer por l ficou mais gordo.
     ANTNIO - Ouvistes muita coisa.
     POMPEU - Tenho honestas intenes, meu senhor.
     ANTNIO - E honestamente vos expressais.
     POMPEU - Foi quanto me disseram. Ouvi dizer tambm que Apolodoro carregara nos ombros...
     ANTNIO - Basta!  certo.
     POMPEU - Certo, qu?
     ENOBARBO - Num colcho uma rainha para Csar.
     POMPEU - Agora reconhea-te. Como vais, camarada?
     ENOBARBO - Bem, e espero continuar assim, pois temos quatro festins em perspectiva.
     POMPEU - D-me a mo. Nunca te votei dio, mas ao ver-te pelejar invejei tua postura.
     ENOBARBO - Senhor, nunca vos tive muito afeto; mas j vos elogiei, quando dez vezes mais, talvez, merecsseis do que tudo que eu pudesse dizer.
     POMPEU - S sempre franco, que no te fica mal essa linguagem. Para minha galera vos convido. Quereis passar na frente, meus senhores?
     CSAR, ANTNIO e LPIDO - Senhor, mostrai-nos o caminho. Vamos.
     (Saem todos, com exceo de Menas e Enobarbo.)
     MENAS - Teu pai, Pompeu, jamais teria feito um tratado nessas condies. Creio que j nos vimos, senhor.
     ENOBARBO - No mar, se no estou enganado.
     MENAS - Perfeitamente, senhor.
     ENOBARBO - Realizastes grandes feitos na gua.
     MENAS - Assim como vs, em terra.
     ENOBARBO - Estou pronto a elogiar quem me elogiar, muito embora no se possa negar o que eu fiz em terra.
     MENAS - Nem o que eu fiz na gua.
     ENOBARBO - Contudo, para vossa prpria segurana, tereis que negar alguma coisa. Fostes um grande ladro do mar.
     MENAS - Assim como vs, de terra.
     ENOBARBO - Nesse ponto eu nego os meus servios de terra. Mas dai-me a mo. Se nossos olhos tivesse autoridade, Menas, prenderiam agora dois ladres que se 
beijam.
     MENAS - O rosto dos homens  sempre honesto, faam as mos o que fizerem.
     ENOBARBO - Mas nunca houve mulher bonita com rosto honesto.
     MENAS - Sem querer caluni-las, roubam coraes.
     ENOBARBO - Viemos aqui para nos batermos convosco.
     MENAS - Por minha parte, entristece-me ter acabado tudo em bebedeira. Sorrindo, Pompeu d hoje um empurro na prpria sorte.
     ENOBARBO - Se o fizer, no poder depois, com lgrimas, cham-la para trs.
     MENAS -  como dizeis, senhor. No espervamos encontrar aqui Marco Antnio. Por obsquio, ele se casou com Clepatra?
     ENOBARBO - A irm de Csar se chama Otvia.
     MENAS -  muito certo, senhor; foi casada com Caio Marcelo.
     ENOBARBO - Mas agora  esposa de Marco Antnio.
     MENAS - Que me dizeis, senhor?
     ENOBARBO - A pura verdade.
     MENAS - Nesse caso, Csar e ele esto unidos para sempre.
     ENOBARBO - Se eu tivesse que profetizar a respeito dessa unio, no me exprimiria nesses termos.
     MENAS - Sou de opinio que os interesses polticos entraram com muito maior contingente para a realizao desse enlace do que o prprio amor dos interessados.
     ENOBARBO -  tambm o que eu penso. Mas ainda chegareis a ver que o lao que parece unir a amizade deles dois se transformar justamente na corda que vai estrangular-lhes 
a afeio. Otvia  casta, fria e de exterior sereno.
     MENAS - Quem no desejara uma esposa desse jeito?
     ENOBARBO - Quem no for assim, a saber: Marco Antnio. Ele voltar para a gamela de sua egpcia. Ento, os suspiros de Otvia atiaro o fogo de Csar e, como 
disse h pouco, o que constitui hoje o forte da amizade deles dois, se afirmar como o fator imediato da discrdia entre ambos. Antnio no desviar de l sua afeio; 
s desposou aqui sua prpria necessidade.
     MENAS -  possvel que seja assim. Vinde, senhor. No quereis ir para bordo? Desejo beber  vossa sade.
     ENOBARBO - Aceito, senhor. No Egito trabalhamos bem com a garganta.
     MENAS - Ento vamos logo.
     (Saem.)

      
Cena VII
      
A bordo da galera de Pompeu, junto do Cabo Miseno.
Msica. Entram dois ou trs criados com uma mesa posta.
      
     PRIMEIRO CRIADO - Vo chegar, homem! Vo chegar! Muitos desses caules esto com a raiz podre; o menor vento os lanar por terra.
     SEGUNDO CRIADO - Lpido j est muito corado.
     PRIMEIRO CRIADO - Fizeram-no beber o resto de todas as garrafas
     SEGUNDO CRIADO - Quando eles beliscam reciprocamente suas disposies, ele grita: "No prossigais!" reconcilia-os com suas splicas e a si prprio com a bebida.
     PRIMEIRO CRIADO - Suscitando com isso dissdio ainda maior entre ele e a prpria discrio.
     SEGUNDO CRIADO - Ora, isso acontece quando se tem o nome na companhia dos grandes homens. Prefiro um canio que no me sirva para nada a uma partazana que eu 
no possa levantar.
     PRIMEIRO CRIADO - Ser convidado para uma alta esfera e no ser visto mover-se, quando ela se desloca,  ser como essas rbitas sem olhos que deformam lastimosamente 
os rostos.
     (Toque de trombetas. Entram Csar, Antnio, Lpido, Pompeu, Agripa, Mecenas, Enobarbo, Menas e outros capites.)
     ANTNIO - Assim fazem. Do Nilo a altura tomam por meio de umas marcas na pirmide. Pela marca mais alta, mdia e baixa sabem se vai haver falta ou abundncia. 
Quanto mais sobe o Nilo, mais promete. Quando reflui, o semeador espalha na lama e lodo os gros, vindo a colheita pouco tempo depois.
     LPIDO - Tendes por l serpentes esquisitas.
     ANTNIO -  verdade, Lpido.
     LPIDO - Vossa serpente do Egito nasce do vosso lodo pela ao de vosso sol, o mesmo acontecendo com o crocodilo.
     ANTNIO -  o que se d, realmente.
     POMPEU - Sentai-vos! Vamos ao vinho!  sade de Lpido!
     LPIDO - No me sinto to bem como quisera, mas nessas coisas nunca fico de fora.
     ENOBARBO (a parte) - Enquanto no vos pondes a dormir. Mas receio muito que at l ficareis dentro.
     LPIDO - No,  certo. Ouvi dizer que as pirmides de Ptolomeu so coisas extraordinrias. Sim, foi o que me disseram.
     MENAS - Pompeu uma palavra.
     POMPEU - Segredai-ma. Que aconteceu?
     MENAS - Deixa o lugar, meu chefe, para me ouvires uma palavrinha.
     POMPEU - Espera um pouco. Vinho para Lpido!
     LPIDO - De que jeito  o vosso crocodilo?
     ANTNIO - Parece-se muito consigo mesmo, senhor, e  da largura que lhe  prpria. Sua altura no passa da que ele tem, movimentando-se ele com seus prprios 
membros. Vive do que o alimenta e, uma vez dispersados os elementos, transmigra para outra parte.
     LPIDO - De que cor  ele?
     ANTNIO - De sua prpria cor.
     LPIDO -  uma serpente muito esquisita.
     ANTNIO - Perfeitamente; e suas lgrimas so midas?
     CSAR - Essa descrio o satisfaz?
     ANTNIO - Sim, depois dos brindes de Pompeu. Fora disso,  um verdadeiro epicuro.
     POMPEU - Ide enforcar-vos! Para que falar-me? Fazei o que vos disse. Que  da taa que vos pedi h pouco?
     MENAS - Se por tudo quanto te fiz quiseres atender-me, deixa a cadeira e vem.
     POMPEU - Ests maluco? Que aconteceu?
     (Afastam-se.)
     MENAS - Diante de tua sorte sempre fui reverente.
     POMPEU - Tens-me sempre servido com lealdade. Que mais posso dizer-te. - Meus senhores, alegria!
     ANTNIO - Tomai cuidado, Lpido, com esses bancos de areia; podem absorver-vos.
     MENAS - Queres ficar senhor do mundo todo?
     POMPEU - Que ests dizendo?
     MENAS - Torno a perguntar-te: queres ficar senhor do mundo todo?
     POMPEU - Como fora possvel?
     MENAS - Se me deres consentimento, embora eu seja pobre, poderei dar-te o mundo de presente.
     POMPEU - Tens bebido bastante?
     MENAS - No, Pompeu abstive-me de todo. Se quiseres, ficars sendo o Jpiter terreno. Tudo o que o oceano cerca e o cu abarca ficar sendo teu, se o desejares.
     POMPEU - Dize-me como poder ser isso.
     MENAS - Os trs competidores, que em trs partes o mundo dividiram, ora se acham a bordo de teu barco. Se me deres consentimento, cortarei os cabos. Uma vez 
afastados, lhes cairemos no pescoo, e tudo isto te pertence.
     POMPEU - Ah! fora bom se houvesses feito tudo sem me dizeres nada. Bom servio de tua parte, em mim fora vileza. Fica sabendo que no  o lucro que a honra 
me impulsiona;  a honra mesma.  pena que tua lngua houvesse sido traidora de teu ato. Se tivesses feito em silncio, eu acharia jeito, depois, de achar bem feito. 
Mas agora repilo a idia. Assim, desiste e bebe.
     MENAS ( parte) - S por isso nunca mais seguirei tua sorte plida. Quem algo almeja e no o aceita, quando lho oferecem, jamais volta a encontr-lo.
     POMPEU -  sade de Lpido!
     ANTNIO - Levai-o para terra. Pompeu, falo eu por ele.
     ENOBARBO -  tua, Menas!
     MENAS - Enobarbo, salve!
     POMPEU - Enchei a taa at que suma toda.
     ENOBARBO - Ali est um tipo bem forte, Menas.
     (Apontando para o criado que sai carregando Lpido.)
     MENAS - Por qu?
     ENOBARBO - Ora, homem! Pois vai carregando uma tera parte do mundo, no ests vendo?
     MENAS - Bbeda se acha essa terceira parte. Se assim o mundo todo se encontrasse, andaria de rodas.
     ENOBARBO - Ento bebe tambm; aumenta as rodas.
     MENAS - Vamos.
     POMPEU - Ainda falta muito para que isto se transforme em festim de Alexandria.
     ANTNIO - Est perto. Batei as taas, oh! Agora para Csar!
     CSAR - Poderia passar sem isso agora?  esforo insano verificar que quanto mais o crebro tento lavar, mais ele se me enturva.
     ANTNIO - S filho de teu tempo.
     CSAR - No, domina-o;  como te respondo. Preferira passar sem comer nada quatro dias, a beber tanto num.
     ENOBARBO (A Antnio) - Meu bravo imperador, no danaremos agora a bacanal egpcia, para chorar a bebedeira?
     POMPEU - Vamos, mostra-nos, camarada, como .
     ANTNIO - s mos nos demos, at que o vinho vencedor nos tenha mergulhado os sentidos no suave e delicado Lete.
     ENOBARBO - s mos trancemos; os ouvidos deixemos atordoados com msica bem forte. Nesse em meio, designarei a todos seus lugares. Este rapaz dar comeo ao 
canto. Diro a um tempo todos o estribilho com tanta fora quanto permitirem os pulmes resistentes.
     Cano.
     Vem depressa, rei do vinho, ndio Baco em desalinho. Acabemos com as dietas em tuas tinas repletas, e grinaldas de teus ramos em torno  fronte ponhamos. Mais 
vinho! Que vire o mundo! Mais vinho! Que vire o mundo!
     CSAR - Que quereis mais? Pompeu muito boa noite. Permiti, caro mano, que vos leve. Nossos graves cuidados nos censuram por esta leviandade. Meus senhores, 
fiquemos por aqui, pois estais vendo que em brasa o rosto temos. O fortssimo Enobarbo  mais fraco do que o vinho, fendendo minha lngua quanto eu digo. Estas vestes 
selvagens, em palhaos a todos ns mudaram. Que diremos ainda? Boa noite. Caro Antnio, d-me a mo.
     POMPEU - Vou levar-vos at  praia.
     ANTNIO - Pois no, senhor; aceito vossa oferta. Sim, dai-me a mo.
     POMPEU - Antnio, arrebatastes-me a casa de meu pai. Mas pouco importa; somos amigos. Vamos para o bote.
     ENOBARBO - Tomai cuidado para no cairdes. (Saem Pompeu, Csar, Antnio e criados.) Menas, no saltarei.
     MENAS - De forma alguma. Para o meu camarote. Esses tambores! essas trombetas! essas flautas! Ouve Netuno, a despedida barulhenta que damos a esses grandes 
companheiros. Vamos! Barulho, vamos! Que se enforquem!
     (Toque de trombeta, e tambores.)
     ENOBARBO - Urra!  o que eu digo. Eis o meu gorro.
     MENAS - Urra! Meu nobre capito, avante!
     (Saem.)

      
ATO III
Cena I
      
Plancie na Sria Entra Ventdio em triunfo, com Slio e outros romanos; Oficiais e soldados. A frente  trazido o corpo de Pacoro.
      
     VENTDIO - Dardos da Prtia, fostes subjugados e agora vingador a sorte amvel do trespasse me faz de Marco Crasso. Ponde  frente do exrcito o cadver do 
filho do monarca. Teu Pacoro, Orodes, isto paga a Marco Crasso.
     SLIO - Nobre Ventdio, enquanto tua espada com o sangue parto ainda se encontra quente, persegue os fugitivos, pela Mdia, pela Mesopotmia, nos abrigos em 
que eles, dispersados, se acolheram. Assim, teu grande capito Antnio te cingir a fronte com guirlandas, carregando-te em carro de triunfo.
     VENTDIO -  Slio! Slio! Fiz o suficiente. Um subalterno - toma nota - nunca deve fazer qualquer ao brilhante. Pois Slio, aprende que  de mais proveito 
deixar de fazer algo do que fama adquirir por um feito, quando ausente se encontrar nosso chefe. Antnio e Csar sempre ganharam mais por seus prepostos do que por 
eles mesmos. O tenente de Antnio, meu antecessor na Sria, Sssio, alto nome havendo conquistado rapidamente, por vitrias mltiplas, perdeu o favor dele. Quem 
na guerra faz mais que o capito, cedo transforma-se em capito do prprio capito. A ambio, que  a virtude do soldado, prefere uma derrota a uma vitria que 
venha a desservi-la. Eu poderia fazer muito mais coisas para Antnio; mas isso fora ofensa, e nessa ofensa naufragara meu mrito.
     SLIO - Ventdio, s dotado de certas qualidades sem as quais um soldado e sua espada mal podem distinguir-se. No pretendes escrever para Antnio?
     VENTDIO - Humildemente lhe comunicarei o que em seu nome - essa palavra mgica da guerra - pudemos realizar, como, com suas bandeiras e seus homens mui bem 
pagos, do campo escorraamos os cavalos jamais batidos dos soldados partos.
     SLIO - Onde est ele agora?
     VENTDIO - Pretendia ir para Atenas, onde  nosso intento procur-lo com a pressa permitida pelo peso do esplio que levamos. Sigamos logo. Avante!
     (Saem.)

      
Cena II
      
Roma. Um quarto em casa de Csar. Entram Agripa e Enobarbo, por lados diferentes.
      
     AGRIPA - Como! Os manos j foram?
     ENOBARBO - Assentaram com Pompeu alguns pontos importantes. Pompeu j foi; os outros trs se ocupam em selar o tratado. Otvia chora por deixar Roma; Csar 
est triste; Lpido, desde a festa de Pompeu, como diz Menas, sofre de ictercia.
     AGRIPA - Como Lpido  nobre!
     ENOBARBO - Primoroso! E como ele ama Csar!
     AGRIPA - Certo! Certo! Mas tambm como adora Marco Antnio!
     ENOBARBO - Csar? Oh! Ele  o Jpiter dos homens.
     AGRIPA - E Antnio que ser? O deus de Jpiter.
     ENOBARBO - Falais de Csar? Oh!  sem segundo!
     AGRIPA - Oh Antnio, Antnio! Pssaro da Arbia!
     ENOBARBO - Para elogiarmos Csar,  bastante dizermos "Csar", sem nenhum acrscimo.
     AGRIPA - Oh! ele soube dispensar a ambos os elogios mais extraordinrios.
     ENOBARBO - Mas ama mais a Csar. Ama a Antnio. Oh! lnguas, coraes, pintores, bardos, poetas, escritores no conseguem pensar, falar, cantar, plasmar, dar 
forma, ah! ao amor que a Antnio ele dedica. Mas em frente de Csar, ajoelhai-vos, ca de joelhos e mostrai espanto.
     AGRIPA - Dedica amor aos dois.
     ENOBARBO - Eles os litros so daquele, que  escaravelho de ambos. (Trombetas dentro.)  o toque de montar. Adeus, Agripa.
     AGRIPA - Adeus, digno soldado. Muita sorte.
     (Saem.)
     (Entram Csar, Antnio, Lpido e Otvia.)
     ANTNIO - No mais longe, senhor.
     CSAR - Levais de mim uma poro bem grande. Nela me dai condigno tratamento. Mana, revela-te uma esposa como penso que s em verdade e como as minhas mais 
altas esperanas o desejam. Meu nobre Antnio, no deixeis que o esteio de virtude que entre ns dois pusemos, para firmar de vez nossa amizade, no arete se mude, 
destinado a sacudir-lhe as bases. Melhor fora para ns dois que amado nos tivssemos sem este trao de unio, que virmos em qualquer tempo a no querer-lhe muito.
     ANTNIO - No me ofendais com vossa desconfiana.
     CSAR - Tenho dito.
     ANTNIO - Por mais que vos mostrsseis exagerado nisso, nunca haveis de achar um trao ao menos do que tanto manifestais receio. Assim, que os deuses vos amparem, 
deixando concertados a vossos fins os coraes romanos. Aqui nos despedimos.
     CSAR - Adeus. Adeus, tambm, irm querida. Sejam-te os elementos generosos, deixando-te os sentidos bem dispostos. Adeus.
     OTVIA - Meu nobre mano
     ANTNIO - Abril tem ela nos olhos, primavera dos amores, que por esse aguaceiro  conduzida. Fica alegre.
     OTVIA - Senhor, olhai a casa de meu marido, e...
     CSAR - Que disseste, Otvia?
     OTVIA - Vou dizer-vo-lo no ouvido.
     ANTNIO - Ao corao desobedece a lngua, tal como aquela a esta. De igual modo, no alto da onda mantm-se a plumazinha do cisne,  mar cheia, sem voltar-se 
para lado nenhum.
     ENOBARBO ( parte, a Agripa) - Ser que Csar vai chorar?
     AGRIPA - Uma nuvem tem no rosto.
     ENOBARBO - Isso j fora ultraje num cavalo. Que no ser num homem?
     AGRIPA - Enobarbo, ao ver Antnio a Jlio Csar morto, quase rugiu de dor, e chorou muito quando morto em Filipos achou Bruto.
     ENOBARBO - Naquele ano ele andava endefluxado. Chorava o que ele destruiu de grado? S se eu tambm chorar  que hei de cr-lo.
     CSAR - No, doce Otvia, mandarei notcias; o tempo no apaga tua imagem.
     ANTNIO - Vamos, senhor. Quero lutar convosco com respeito ao amor. Eis meu abrao. Deste modo vos solto e vos entrego  proteo dos deuses.
     CSAR - Passai bem. Sede feliz.
     LPIDO - Que todas as estrelas te iluminem a estrada.
     CSAR - Adeus.
     (Beija Otvio.)
     ANTNIO - Adeus.
     (Soam trombetas. Saem.)

      
Cena III
      
Alexandria. Um quarto no palcio. Entram Clepatra, Charmian, Iras e Alexas.
      
     CLEPATRA - Onde est o homem?
     ALEXAS - No quer vir; tem medo.
     CLEPATRA - Vai, vai busc-lo. (Entra o mensageiro.) Vinde aqui, senhor.
     ALEXAS - Bondosa Alteza, Herodes da Judia a olhar-vos no se atreve seno quando vos achais bem disposta.
     CLEPATRA -  meu desejo vir a ter a cabea desse Herodes. Mas para quem hei de pedi-la, estando de l ausente Antnio? Isso, aproxima-te.
     MENSAGEIRO - Graciosa majestade!
     CLEPATRA - Viste Otvia?
     MENSAGEIRO - Vi, sim, rainha venervel.
     CLEPATRA - Onde?
     MENSAGEIRO - Senhora, em Roma. Contemplei-lhe o rosto e vi-a entre o irmo dela e Marco Antnio.
     CLEPATRA -  to alta quanto eu?
     MENSAGEIRO - No , senhora.
     CLEPATRA - Falar a ouviste? Fala baixo ou alto?
     MENSAGEIRO - Ouvi, sim; fala baixo.
     CLEPATRA -  mau indcio; ele no a amar por muito tempo.
     MENSAGEIRO - Como! Am-la? Oh, por sis! Impossvel.
     CLEPATRA -  tambm o que eu penso. Charmian, fala sossegada e  baixota. E sua marcha, revela majestade? Pensa nisso, se  que j contemplaste majestade.
     MENSAGEIRO - Ela se arrasta, tanto faz mover-se como ficar parada,  a mesma coisa. Parece mais cadver do que gente, esttua pura, no dotada de alma.
     CLEPATRA - Estais seguro disso?
     MENSAGEIRO - Salvo se olhos eu no tiver.
     CHARMIAN - No temos trs pessoas no Egito que melhor observar saibam.
     CLEPATRA - Ele sabe o que diz, estou notando. Ento ela carece de atrativos. Este homem sabe ajuizar as coisas.
     CHARMIAN - Otimamente.
     CLEPATRA - E a idade dela? Quantos anos ter?
     MENSAGEIRO - Ela era viva, minha senhora.
     CLEPATRA - Charmian, escuta: viva!
     MENSAGEIRO - Penso que tem trinta anos.
     CLEPATRA - E o feitio do rosto, ainda te lembras?  redondo ou alongado?
     MENSAGEIRO - Oh! bem redondo; chega a ser defeituosa.
     CLEPATRA - A maior parte das pessoas assim so abobadas. E de que cor so os cabelos dela?
     MENSAGEIRO - Senhora, escura, e tem to baixa fronte quanto ela prpria desejar pudera.
     CLEPATRA - Recebe este ouro. A mal levar no deves minha aspereza de antes. Tenho idia de encarregar-te novamente disso, pois vejo que ds conta do recado. 
Vai preparar-te. As cartas esto prontas.
     (Sai o mensageiro.)
     CHARMIAN -  um sujeito capaz.
     CLEPATRA - Muito, realmente. Pesa-me, agora, t-lo molestado. Por sua descrio essa criatura no vale grande coisa.
     CHARMIAN - Nada, nada, minha senhora.
     CLEPATRA - Ele j viu, decerto, majestade, sabendo, porventura...
     CHARMIAN - Se j viu majestade? Isis me ampare! Servindo-vos aqui h tanto tempo?
     CLEPATRA - Tenho uma coisa ainda a perguntar-lhe, boa Charmian. Mas isso pouco importa. Leva-o para onde eu vou fazer as cartas. Talvez ainda conciliemos tudo.
     CHARMIAN - Garanto-vos, senhora.
     (Saem.)

      
Cena IV
      
Atenas. Um quarto em casa de Antnio. Entram Antnio e Otvia.
      
     ANTNIO - No, no Otvia; no  isso apenas. Isso fora escusvel, isso e inmeros outros fatos iguais. Recentemente contra Pompeu abriu de novo guerra; o testamento 
fez e leu-o em pblico. Falou de mim mui perfunctoriamente, e quando tinha de prestar-me homenagem, expressava-se com frieza e a contragosto, s medindo-me por bitola 
acanhada. Quando tinha boa oportunidade, desprezava-a, de caso bem pensado, ou mui de leve, to-somente, a pegava.
     OTVIA -  caro esposo! no deis crdito a tudo, ou, caso o derdes, no leveis tudo a mal. Mulher alguma mais infeliz - se vier a tomar vulto tal desinteligncia 
- colocada se viu entre os dois campos contendores a rezar pelos dois. Ho de zombar de mim os deuses plcidos, quando rezar me ouvirem: "Protegei meu senhor e marido!" 
e, destruindo logo aps esse voto, exclamar alto: "Protegei meu irmo!" Vena o marido, vena o irmo... um pedido destri o outro. Nesses extremos no h meio termo.
     ANTNIO - Nobre Otvia, coloca o teu afeto onde ele possa ser mais bem guardado. Se eu perder a honra, perco-me a mim mesmo. Prefiro no ser vosso, a pertencer-vos 
to desgalhado assim. Mas acedendo no que pedis, fareis de medianeira entre mim e ele. Nesse meio tempo, senhora, tratarei dessa campanha que a vosso irmo ir deixar 
na sombra. Se puserdes bastante pressa nisso, realizados vereis vossos desejos.
     OTVIA - Obrigada vos fico. O poderoso Jpiter fez de mim, fraca, to fraca, vossa conciliadora. Uma contenda entre vs, fora como se o universo viesse a rachar, 
devendo corpos mortos soldar a grande fenda.
     ANTNIO - Logo que virdes de onde vem a causa do dissdio entre ns, para essa banda fazei pender o vosso desagrado. Pois nunca podero ser nossas faltas to 
iguais que meream tratamento igual de vosso amor. Cuidai da viagem. Vs mesma escolhereis as componentes de vosso sqito e fareis o cmputo das despesas que achardes 
necessrias.
     (Saem.)

      
Cena V
      
O mesma Outro quarto. Entram Enobarbo e Eros, que se encontram.
      
     ENOBARBO - Ento, amigo Eros!
     EROS - Chegaram notcias muito estranhas, senhor.
     ENOBARBO - Que notcias, homem?
     EROS - Csar e Lpido atacaram Pompeu.
     ENOBARBO - Ora, isso j  velho. E qual foi o resultado?
     EROS - Csar, tendo-se aproveitado de Lpido na guerra contra Pompeu, recusou-se a reconhecer nele um seu igual, no permitindo que lhe tocasse nenhuma parte 
da glria desse feito. E sem parar a, acusa-o, ainda, de haver escrito antes a Pompeu, motivo por que o prendeu, com base na acusao por ele prprio formulada. 
Assim, o pobre trinviro est na grade, at que a morte alargue sua priso.
     ENOBARBO - Desse modo ficaste -  mundo, apenas com um par de queixadas, e ainda mesmo que entre elas jogues tudo o que tiveres, entre si ho de moer-se. Onde 
est Antnio?
     EROS - Passeia no jardim - assim - e pisa a erva que acha, a exclamar de quando em quando: "Que estpido, esse Lpido!" o pescoo do oficial ameaado que sem 
vida deixou Pompeu.
     ENOBARBO - Aparelhada nossa grande esquadra se encontra.
     EROS - Para o ataque contra Csar e a Itlia. Mais, Domnio; meu amo quer falar-vos com urgncia. Depois vos contarei o que ainda falta.
     ENOBARBO - H de ser quase nada. Pouco importa. Levai-me a Antnio.
     EROS - Ento, senhor, segui-me.
     (Saem.)

      
Cena VI
      
Roma. Um quarto em casa de Csar. Entram Csar, Agripa e Mecenas.
      
     CSAR - Em menoscabo a Roma fez tudo isso, mas em Alexandria fez pior. Passou-se assim: em meio  praa pblica em tronos de ouro, sobre uma tribuna de prata 
ele e Clepatra se achavam. Aos ps deles Cenrio se encontrava, que  filho de meu pai, segundo dizem, e todos os produtos ilegtimos a que a lascvia deles dois 
deu vida. Ento Antnio conferiu a Clepatra o governo do Egito e proclamou-a soberana absoluta no somente de Chipre e Ldia, mas da baixa Sria.
     MECENAS - E isso  vista de todos?
     CSAR - No recinto pblico das ginsticas. O filho dele foi proclamado rei dos reis. A Alexandre ele deu a grande Mdia, a Ptria e a Armnia; enfim, a Ptolomeu 
a Fencia doou, Sria e Cilcia. Nesse dia Clepatra vestiu-se como a deusa Isis, sendo voz corrente que desse jeito, muitas vezes, antes ela audincia j deu.
     MECENAS -  necessrio que Roma saiba disso.
     AGRIPA - J bastante desgostosa com seu descaramento, de toda estima h de priv-lo logo.
     CSAR - O povo sabe disso; as queixas dele j foram feitas.
     AGRIPA - A quem ele acusa?
     CSAR - A Csar, alegando que, aps termos na Siclia tomado todo o esplio de Pompeu, a lhe dar nos recusamos a sua parte da ilha. Alega, ainda, que eu no 
lhe devolvi alguns navios que me havia emprestado. Finalmente, acha-se estomagado por ter Lpido perdido o triunvirato e ns nos termos apossado de todos os bens 
dele.
     AGRIPA -  preciso, senhor, responder a isso.
     CSAR - J foi feito. Partiu o mensageiro. Fiz-lhe ver como Lpido se tinha mostrado muito cruel e que abusara de sua autoridade, merecendo, por isso, tal castigo. 
Nas conquistas feitas por mim ele teria parte; porm que a mesma coisa eu exigia de sua Armnia e de outros reinos que ele havia conquistado.
     MECENAS - Nunca ele h de conceder esse ponto.
     CSAR - Nesse caso naquele outro tambm no cederemos.
     (Entra Otvia, com seu sqito.)
     OTVIA - Salve, senhor! Meu caro Csar, salve!
     CSAR - Chegar a ver-te um dia repudiada!
     OTVIA - Nunca assim me chamastes; no h causa.
     CSAR - Por que vens surpreender-nos desse modo? No te apresentas como irm de Csar. A consorte de Antnio deveria ter como introdutor um grande exrcito, 
servindo-lhe o relincho dos cavalos de sinal de chegada, muito tempo antes de ela surgir. Por toda a estrada carregadas as rvores deviam mostrar-se de homens e 
a curiosidade definhar por querer o que lhe falta. Mais, ainda: at  abboda celeste chegar devia a poeira, levantada pela populao cheia de jbilo. Mas como rapariga 
do mercado viestes a Roma, assim deixando frustras as manifestaes de meu afeto que, muitas vezes, sem ser visto, fica tambm sem ser amado. Deveramos ter ido 
ao vosso encontro assim em terra como no mar, as estaes enchendo de saudaes crescentes.
     OTVIA - Meu bondoso senhor, no vim forada desse jeito, mas por livre vontade. Meu marido, Marco Antnio, ao saber que vos armveis para a guerra, instrues 
deu minuciosas a meu aflito ouvido. Obtive dele permisso para vir.
     CSAR - Por ele dada com presteza, por serdes um obstculo posto entre ele e a lascvia.
     OTVIA - No, bondoso senhor; no digais isso.
     CSAR - Tenho-o sempre de olho; o vento me traz notcias dele. Em que lugar ele se encontra agora?
     OTVIA - Em Atenas, senhor.
     CSAR - No  verdade, muito enganada irm; j lhe fez Clepatra sinal, chamando-o. A uma prostituta deu ele seu imprio, e os reis da terra ambos, agora, para 
a guerra incitam. Assim, j convocou Baco, da Lbia, o rei da Paflagnia, Filadelfo, Abdala, rei da Trcia, o rei do Ponto, Herodes da Judia, o soberano da Capadcia, 
que Arquelau se chama, Mitridates de Comagene, Amintas e Polemo, de Licania e Mdia, e outra lista maior de reis cetrados.
     OTVIA - Ai de mim, infeliz, que dividido tenho ora o corao entre dois seres que reciprocamente se maltratam!
     CSAR - Sede bem-vinda. Retardaram vossas cartas vossa partida. Desejvamos, convencer-nos, tambm, de quanto tnheis sido ultrajada, e ns assim, corrido grande 
risco com tanta negligncia. Reanimai-vos, sem vos amofinardes com o presente que sobre vossa dita tantas preocupaes tem atirado. Sem nos queixarmos, aceitemos 
quanto nos impe o destino no seu curso. A Roma sois bem-vinda. Sobre tudo vos dedico afeio. No pode a mente conceber quanto fostes ultrajada. Os altos deuses, 
para vos fazerem justia, em seus ministros nos transformam e a todos que vos prezam. Reanimai-vos e sede sempre para ns bem-vinda.
     AGRIPA - Sois bem-vinda, senhora.
     MECENAS - Mui prezada senhora, sois bem-vinda. Todos os coraes de Roma, a um tempo, vos amam e lastimam. S o adltero Antnio, inteiramente mergulhado em 
suas ignomnias, vos repele e seu poder a uma rameira entrega, que contra ns atroa.
     OTVIA -  assim, senhor?
     CSAR - Decerto. Mana, sois bem-vinda. Tende pacincia, por obsquio, irm querida!
     (Saem.)

      
Cena VII
      
Acampamento de Antnio, junto do promontrio de Actio. Entram Clepatra e Enobarbo.
      
     CLEPATRA - Certeza podes ter de que haveremos de ficar quites.
     ENOBARBO - Mas por qu? Por qu?
     CLEPATRA - Por desaconselhardes minha vinda a esta guerra, julgando-a deslocada.
     ENOBARBO - E dai? E dai?
     CLEPATRA - Ainda mesmo que no houvesse sido declarada contra ns, por que no comparecermos em pessoa a esta guerra?
     ENOBARBO ( parte) - Poderia dizer que se trouxssemos cavalos e guas para a campanha, ficaramos sem cavalos, que as guas se veriam a carregar foradas os 
cavalos e os cavaleiros.
     CLEPATRA - Que  que ests dizendo?
     ENOBARBO - Vossa presena embaraaria Antnio, reclamar-lhe-ia o corao, o crebro, f-lo-ia perder tempo, justamente quando nada desviar nos  possvel. J 
o acoimam de ftil, comentando-se em Roma que esta guerra  dirigida pelo eunuco Fotino e vossas criadas.
     CLEPATRA - Desaparea Roma e que apodream todas as lnguas que de ns falarem. Tenho funo nesta campanha, e como cabea de meu reino hei de mostrar-me soldado 
de valor. No me retruques; no ficarei atrs.
     ENOBARBO - Estou calado. A vem o imperador.
     (Entram Antnio e Candio.)
     ANTNIO - No te parece muito estranho, Candio, que ele tenha, partindo de Tarento e de Brundsio, to velozmente atravessado o Jnio e tomado Torine? No 
Ouvistes falar nisso, querida?
     CLEPATRA - Os negligentes  que a celeridade mais admiram.
     ANTNIO - Excelente resposta, que ficaria muito bem no melhor dos combatentes, visando a repreender a negligncia. No mar, Candio, vou lutar com ele.
     CLEPATRA - No mar? Que h mais?
     CANDIO - Por que vai fazer isso, meu senhor?
     ANTNIO - Porque fomos desafiados.
     ENOBARBO - Meu senhor poderia desafi-lo, se assim , para duelo.
     CANDIO - Justamente, e traz-lo a Farslia, para o embate, onde Pompeu e Csar se encontraram. Propostas que lhe so desfavorveis so sempre recusadas. Devereis 
fazer como ele faz.
     ENOBARBO - Vossos navios esto mal equipados; a maruja se compe de azemis e segadores, gente alistada compulsoriamente. Nos navios de Csar se acham muitos 
que j contra Pompeu provados foram. Seus barcos so ligeiros; mais pesados, todos os vossos. No ser desonra nenhuma recusardes um combate no mar, se forte vos 
achais em terra.
     ANTNIO - No mar! No mar!
     ENOBARBO - Meu muito digno chefe, abris mo, desse modo, da absoluta supremacia que no firme tendes; enfraqueceis o exrcito, composto, em sua maioria, de pedestres 
j provados na guerra; sem proveito vossa fama deixais e a alta experincia, desviai-vos do caminho que promete melhor sucesso, para vos lanardes nos perigos do 
azar, abandonando de todo a segurana.
     ANTNIO - Vou bater-me no mar.
     CLEPATRA - Dou-vos sessenta embarcaes. Csar no tem melhores.
     ANTNIO - Queimaremos nosso excesso de barcos. Com os restantes, bem tripulados, bateremos Csar, quando ele vier se aproximando de Actio. No caso de perdermos, 
poderemos desbarat-lo em terra. (Entra um mensageiro.) Que notcias?
     MENSAGEIRO -  certo, meu senhor, ele est  vista. Csar tomou Torine.
     ANTNIO - Ele, em pessoa, l! No  possvel. E estranho que tivesse tanta fora. Em terra tomars conta de nossas dezenove legies, Candio, e nossos doze 
mil de cavalo. Para bordo! Vem, minha Ttis.
     (Entra um soldado.)
     SOLDADO -  nobre imperador, no combatais no mar, no ponhais vossa confiana em pranchas podres. Por acaso j no confiais neste meu gldio e nestas extensas 
cicatrizes? Que os egpcios e os fencios mergulhem; ns estamos afeitos a vencer em terra firme, lutando p com p.
     ANTNIO - Bem, bem, sigamos!
     (Saem Antnio, Clepatra e Enobarbo.)
     SOLDADO - Por Hrcules! no entanto, estou convicto de que tenho razo.
     CANDIO - Tens, sim, soldado; mas  que os atos dele j no se acham guiados pela razo, pois dirigido vai sendo quem devia dirigir-nos, e a soldados ficamos 
reduzidos de uma mulher, apenas.
     SOLDADO - O comando de todos os cavalos e dos homens de p vos foi confiado, no  verdade?
     CANDIO - Marco Otvio e tambm Marco Justeio com Publcola e Clio o mar dirigem. Ns temos ordem de ficar em terra.  incrvel essa rapidez de Csar.
     SOLDADO - Em Roma estando ele ainda, suas foras iam saindo em to pequenos grupos que a todos os espies mistificavam.
     CANDIO - Quem os comanda, sabereis dizer-me?
     SOLDADO - Um Tauro, dizem.
     CANDIO - Ah! Conheo o homem.
     (Entra um mensageiro.)
     MENSAGEIRO - O imperador mandou chamar Candio.
     CANDIO - De novidades est prenhe o tempo; nasce uma a cada instante.
     (Saem.)

      
Cena VIII
      
Plancie perto de Actio. Entram Csar, Tauro, oficiais e outras pessoas.
      
     CSAR - Tauro!
     TAURO - Senhor?
     CSAR - Evita choque em terra; no espalhes os homens; no provoques a batalha sem que no mar tenhamos decidido. Atm-te s instrues aqui exaradas. Nossa 
sorte depende deste lano.
     (Saem.)
     (Entram Antnio e Enobarbo.)
     ANTNIO - Pe nossos esquadres naquele lado do monte, olhando o exrcito de Csar. Divisamos dali todos os barcos, para agirmos de acordo.
     (Saem.)
     (Entra Candio com sua fora de terra, e marcha por um lado da cena; Tauro, tenente de Csar, marcha pelo outro lado. Depois de passarem, ouve-se o rudo do 
combate naval.)
     (Alarma. Volta Enobarbo.)
     ENOBARBO - Est tudo perdido! Tudo, tudo! Ver isso -me impossvel. A Antonfada, a capitnia egpcia, juntamente com seus sessenta barcos, vira bordo, pondo-se 
em fuga. Isso me estraga a vista.
     (Entra Escaro.)
     ESCARO - Deuses e deusas e o conclio inteiro!
     ENOBARBO - Por que essa exclamao?
     ESCARO - A mais notvel poro do mundo vai ficar perdida, por simples ignorncia. Entre dois beijos abrimos mo de remos e provncias.
     ENOBARBO - E a pugna, como est!
     ESCARO - De nossa parte, como a peste, em que a morte  inevitvel. A marafona egpcia - possa a lepra lev-la de uma vez! - em plena luta, quando a fortuna, 
como um par de gmeos se comportava, mas o nosso um tanto maior, ao parecer, tal como a vaca de Juno, que o tavardo exasperasse, ia velas e foge.
     ENOBARBO - Presenciei isso, os olhos me doeram ante esse quadro, sem que suportassem contempl-lo mais tempo.
     ESCARO - Uma vez ela virada a barlavento, a nobre runa de seu feitio, Antnio, tatalando suas asas marinhas, como pato no cio, deixa a pugna, no momento culminante, 
e em ps dela sai fugindo. Jamais vi ato de tamanho oprbrio. A experincia, a coragem, a honra nunca se rebaixaram tanto.
     ENOBARBO - Oh cus! Oh cus!
     (Entra Candio.)
     CANDIO - Nossa sorte no mar est sem flego e naufraga por modo lamentvel. Se nosso general tivesse sido o que ele sabe ser,  maravilha tudo, ento, nos 
correra. Seu exemplo oprobrioso nos serviu de norma, para tambm fugirmos.
     ENOBARBO - Ah! Chegastes a esse ponto? Boa noite, ento.
     CANDIO - Fugiram para o Peloponeso.
     ESCARO - Ser fcil chegarmos at l, onde pretendo aguardar o que o tempo nos reserva.
     CANDIO - Vou entregar a Csar meus cavalos e todas as legies. Seis reis a estrada que vai  rendio j me indicaram.
     ENOBARBO - Continuarei a acompanhar a sorte mal ferida de Antnio, muito embora se sente contra mim o entendimento na corrente do vento.
     (Saem.)

      
Cena IX
      
Alexandria. Um quarto no palcio. Entram Antnio e criados.
      
     ANTNIO - Alto! A terra no quer que eu pise nela; tem vergonha de mim. Amigos, vinde! De tal modo atrasei-me neste mundo, que para sempre me desviei da estrada. 
Tenho um navio carregado de ouro. Ficai com ele e dividi-o; as pazes fazei com Csar.
     CRIADOS - Como! Ns, fugirmos?
     ANTNIO - Eu no fugi? No ensinei aos fracos de que modo correr e virar costas? Amigos, ide; entrei por um caminho que de vs no precisa. Abandonai-me. No 
porto se acha o meu tesouro;  vosso. Oh! fui no encalo do que neste instante me faz ficar corado s de olh-lo. Revolta sinto at nestes cabelos, pois os brancos 
acusam de imprudncia aos pretos, assacando estes queles s medo e presuno. Amigos, ide. Vou escrever a alguns amigos para que a estrada vos aplanem. Por obsquio, 
no fiqueis tristes, nem me deis respostas a contragosto. Aproveitai o aceno que vos dirijo em tanto desespero. Abandonai quem a si mesmo deixa. Ide diretamente 
para a praia, l vos entregarei o barco e o ouro. Deixai-me alguns instantes, por obsquio. Fazei isso, vos peo, que, em verdade, ordens j no sei dar. Por isso, 
peo. Dentro de pouco havemos de rever-nos.
     (Senta-se.)
     (Entra Clepatra conduzida por Charmian e Iras; Eros a segue.)
     EROS - Senhora, ide falar-lhe, consolai-o.
     IRAS - Sim, fazei isso, cara soberana.
     CHARMIAN - Fazei, fazei! Que mais?
     CLEPATRA - Quero sentar-me. Oh, Juno!
     ANTNIO - No, no, no, no!
     EROS - Senhor, no a estais vendo?
     ANTNIO - Oral Ora!
     CHARMIAN - Senhora!
     IRAS - Minha senhora! Boa soberana!
     EROS - Senhor! Senhor!
     ANTNIO -  certo, meu senhor. Ele, em Filipos levava a espada como um danarino. enquanto eu abatia o magro Cssio e liquidava o tresloucado Bruto. Tudo o 
que ele fazia era por meio dos tenentes, sem ter nenhuma prtica dos destemidos esquadres da guerra. No entanto, agora... Pouco importa.
     CLEPATRA - Ah! Fica!
     EROS -  a rainha, senhor: a soberana.
     IRAS - Senhora, ide falar-lhe. Ele est fora de si, inteiramente, de vergonha.
     CLEPATRA - Pois que seja. Amparai-me. Oh!
     EROS - Muito nobre senhor, eis a rainha. Levantai-vos. A cabea pendida, a morte dela se amparar, se no lhe fordes logo levar algum consolo.
     ANTNIO - Ofendi minha glria enormemente. Um desvio, privado de nobreza.
     EROS - A rainha, senhor.
     ANTNIO - Para onde, Egito, me conduziste? V como eu afasto de tua vista meu imenso oprbrio, olhando para trs de mim e vendo quanto ficou em runa e desonrado.
     CLEPATRA -  meu senhor, perdoai as minhas velas medrosas, em excesso. No pensava que podeis seguir-me.
     ANTNIO - Tu sabias perfeitamente, Egito, que em teu leme com fio atado o corao eu tinha, e que me levarias arrastado. Tinhas conscincia da supremacia que 
sobre mim exerces e que a um simples aceno teu eu infringira as ordens dos prprios deuses.
     CLEPATRA - Oh! perdo!
     ANTNIO - Agora ser preciso que a esse moo eu mande proposies humildes, que me valha de fingimentos e desvios longos, de traas vergonhosas, eu, que tinha 
meio mundo nas mos, como brinquedo, e carreiras fazia e desfazia. Sabias muito bem quanto me tinhas sob teu domnio, e que esta minha espada tornada fraca pelo 
amor, s a este, em qualquer circunstncia, obedecera.
     CLEPATRA - Perdo! Perdo!
     ANTNIO - No, no chores. S uma dessas lgrimas vale mais do que tudo que eu perdesse. D-me um beijo; j estou com isto pago. Mandamos nosso preceptor falar-lhe. 
J retornou? Amor, sinto-me agora como se fosse chumbo! - Tragam vinho! A! Tragam comida! - Sabe a sorte que quanto mais apanho mais sou forte.
     (Saem.)

      
CENA X
      
Egito. Acampamento de Csar. Entram Csar, Dolabela, Tireu e outros.
      
     CSAR - Que entre o enviado de Antnio. Conhecei-lo?
     DOLABELA - Csar,  o preceptor dos filhos dele. Preciso  que ele esteja depenado completamente, para que nos mande uma pena to fraca, ele que tinha, no 
h bastantes luas, soberanos como seus mensageiros.
(Entra Eufrnio.)
     CSAR - Entra e fala.
     EUFRNIO - Tal como sou, da parte vim de Antnio. At bem pouco eu era to pequeno para seus planos como o fresco orvalho numa folha de mirto, comparado com 
a grandeza do mar.
     CSAR - Que seja assim. D logo o teu recado.
     EUFRNIO - Ele te envia saudares, como ao dono de sua sorte, e te pede poder viver no Egito. Sendo-lhe isso negado, diminui de muito seu pedido, suplicando-te 
que respirar o deixes entre a terra e ao alto cu, como cidado de Atenas. Quanto a ele, s. E agora, quanto a Clepatra: ante tua grandeza ela se inclina, ao teu 
poder se entrega e de ti pede deixar para seus filhos o diadema dos Ptolomeus, de que dispe tua graa.
     CSAR - Dize a Antnio que ouvidos no possuo para quanto ele diga. A soberana no ficar sem ser ouvida, sendo-lhe concedido o que pede, se ao Egito ela expulsar 
seu degradado amigo, ou l mesmo o matar. Fazendo ela isso, no pedir em vo. Para ambos disse.
     EUFRNIO - Que te diga a Fortuna.
     CSAR - Acompanhai-o com uma escolta pelo Acampamento. (Sai Eufrnio.) (A Tireu.) Chegou o momento de experimentares tua eloquncia. Pe bem depressa nisso. 
De Clepatra separa Marco Antnio. Concede em nosso nome tudo quanto te pedir, e oferece o que julgares conveniente inventar. Nos dias prsperos as mulheres no 
so bastante fortes, mas a necessidade leva  quebra dos votos a vestal nunca tocada. Tireu, revela tua habilidade e faze o edito para o teu trabalho, que, como 
lei, por tudo respondemos.
     TIREU - Partirei, Csar.
     CSAR - V como  que Antnio recebe esse revs e nos transmite teu modo de pensar de como os fatos possam influir nele.
     TIREU - F-lo-ei, Csar.
     (Saem.)

      
Cena XI
      
Alexandria. Um quarto no palcio. Entram Clepatra, Enobarbo, Charmian e Iras.
      
     CLEPATRA - Que fazer, Enobarbo, depois disso?
     ENOBARBO - Pensar; depois, morrer.
     CLEPATRA - Quem  culpado: Antnio ou ns?
     ENOBARBO - Antnio; apenas ele, que deixou dominar seu apetite, por completo,  razo. Se desertastes da grande face da batalha, cujas filas umas s outras 
punham medo, por que razo seguir-vos? O prurido de seu afeto no devera nunca no mando dele influir, principalmente quando o mundo lutava meio a meio, sendo ele 
o assunto prprio da contenda. No foi menor oprbrio do que perda correr em ps de vossos estandartes fugitivos, deixando seus navios de todo atarantados.
     CLEPATRA - Paz, te peo.
     (Entra Antnio com Eufrnio.)
     ANTNIO - Foi isso que ele disse?
     EUFRNIO - Foi, senhor.
     ANTNIO - E a rainha achar demncia nele, no caso de querer sacrificar-me?
     EUFRNIO - Isso mesmo.
     ANTNIO -  preciso que ela o saiba. Basta que envies ao mancebo Csar esta minha cabea j grisalha, para que vejas cheios at  borda teus desejos de reinos.
     CLEPATRA - Como! Tua cabea, meu senhor?
     ANTNIO (a Eufrnio) - Retorna a Csar. Dize-lhe que ele a flor da mocidade traz em sua pessoa, de que o mundo alguma coisa espera. Suas moedas, suas legies, 
seus barcos poderiam a um covarde servir, sobressaindo-se seus auxiliares tanto sob o mando de Csar como sob o de uma criana. Assim, o desafio a pr de lado suas 
vantagens todas e a medir-se com meu ocaso, espada contra espada, ns dois apenas. Vou escrever-lhe isso. Acompanha-me.
     (Saem Antnio e Eufrnio.)
     ENOBARBO ( parte) - Pois no. Seria muito interessante que o vitorioso Csar degradasse sua felicidade, para aos olhos do pblico mostrar-se medindo armas 
com um espadachim. Vejo que o juzo dos homens  uma parte diminuta de sua sorte. As coisas exteriores as faculdades interiores puxam, para o mesmo sofrerem. Sonhar 
ele - que to equilibrado se mostrava - que Csar cheio vai mandar resposta a sua vacuidade! Derrotaste, Csar, tambm o julgamento dele.
     (Entra um criado.)
     CRIADO - Um correio de Csar
     CLEPATRA - Como! Agora? Sem mais formalidades? Damas, vede: diante da rosa aberta o nariz tapam os que adoravam o boto fechado. Fazei-o entrar, senhor.
     (Sai o criado.)
     ENOBARBO ( parte) - Em luta franca nos encontramos, eu e a honestidade. Querer ser fiel a um louco,  deixar louco at o prprio dever. Mas quem consegue manter-se 
fiel a um senhor cado, domina o vencedor de seu prprio amo, e herda um lugar na histria.
     (Entra Tireu.)
     CLEPATRA - Que manda Csar?
     TIREU - Dir-to-ei  parte.
     CLEPATRA - So s amigos; fala francamente.
     TIREU - Mas amigos, qui, tambm de Antnio?
     ENOBARBO - Ele tem preciso, de tantos amigos quanto Csar; do contrrio, nos dispensara a todos. Concordando Csar com isso, correr meu amo para ser dele 
amigo. Quanto aos outros, bem o sabeis, amigos somos sempre de quem for ele amigo, isto : de Csar.
     TIREU - Que seja, ento.  tu, rainha ilustre, Csar te pede que no consideres em tua situao seno apenas que ele  Csar.
     CLEPATRA - Adiante. Como prncipe.
     TIREU - Ele sabe que  menos por afeto do que por medo que abraais Antnio.
     CLEPATRA - Oh!
     TIREU - Apiada-se, por isso, dos estragos causados em vossa honra e os considera manchas  fora impostas, no buscadas por vontade.
     CLEPATRA - Ele  um deus, e, assim, conhece a verdade integral. Abandonada no foi minha honra, mas to-s vencida.
     ENOBARBO ( parte) - Para disso poder obter certeza vou perguntar a Antnio. Amigo, amigo, tanta gua ests fazendo, que nos basta deixar-te naufragar, pois 
tua prpria querida te abandona. (Sai.)
     TIREU - Digo a Csar o que dele almejais? Pois ele quase pede que supliqueis alguma coisa. Ficaria contente se quissseis um cajado fazer da sorte dele, para 
vos apoiardes. Mas ao cmulo chegara da alegria se me ouvisse dizer que Antnio abandonastes, para vos colocardes sob o amparo dele, o senhor do universo.
     CLEPATRA - Vosso nome?
     TIREU - Tireu me chamo.
     CLEPATRA - Caro mensageiro, dizei ao grande Csar que eu lhe beijo, por comisso, as mos conquistadoras. Comunicai-lhe que disposta me acho a lhe depor aos 
ps minha coroa e, ali mesmo, ajoelhar-me. Revelai-lhe que seu hlito todo-poderoso o destino do Egito ir dizer-me.
     TIREU - Muito nobre  o caminho que escolhestes. Quando a sabedoria entra em conflito com a fortuna, se no ousa aquela nada alm do possvel, abalada no ser 
pelo acaso. Concedei-me depor em vossa mo minha incumbncia.
     CLEPATRA - O pai de vosso Csar, muitas vezes, quando pensava em conquistar imprios, nesse lugar indigno os lbios punha, que ento choviam beijos.
     (Volta Antnio e Enobarbo.)
     ANTNIO - Como! Graa? Por Jove atroador! Quem s maroto?
     TIREU - Algum que apenas executa as ordens do mais poderoso homem, do mais digno de ser obedecido.
     ENOBARBO ( parte) - No escapas da chibata.
     ANTNIO - Aproxima-te! s tu mesma, vbora! Agora - deuses e demnios! - sinto que se me escapa a autoridade. Antes, quando eu gritava "Ol!" tal como criana 
em jogo, os reis se apressuravam gritando: "Que quereis?" No tendes ouas? Ainda sou Antnio. (Entram criados.) Levai este malandro e chibateai-o!
     ENOBARBO ( parte) -  melhor provocar um leozinho do que um leo j velho e moribundo.
     ANTNIO - Pela lua e as estrelas! Chibateai-o! Embora fossem vinte dos mais fortes tributrios de Csar, se os achasse com tamanho desplante a mo pegando desta... 
Sim, qual seu nome, depois que ela Clepatra j no ? Azorragai-o, amigos, at que ele, como criana, contraia o rosto e compaixo implore. Levai-o bem depressa.
     TIREU - Marco Antnio...
     ANTNIO - Levai-o logo; e, uma vez bem zurzido, trazei-o aqui de novo. Esse lacaio de Csar vai levar-lhe meu recado. (Saem criados com Tireu.) Quando vos conheci, 
j vos achveis meio passada. Ah! Ter deixado em Roma meu travesseiro, sem pr nele a marca da cabea; privar-me de uma prole legtima com minha esposa rara, para 
abusado assim me ver por uma mulher que d ateno a parasitas!
     CLEPATRA - Meu bondoso senhor...
     ANTNIO - Sempre fostes verstil. Quando o calo criamos no vcio - oh oprbrio! - os deuses sbios os olhos nos embuam, atolando-se no prprio lodo o nosso 
claro juzo; fazem que nossos erros adoremos, riem de ns, enquanto, mui vaidosos, marchamos para nossa decadncia.
     CLEPATRA - Como! Chegamos a isso?
     ANTNIO - Fui achar-vos como um bocado frio na travessa do falecido Csar... No, apenas uma migalha para Cneu Pompeu; sem mencionarmos as ardentes horas que 
a fama no marcou e que soubestes abocar com luxria. Pois embora possais saber o que  a temperana - disso tenho certeza - nunca a vistes.
     CLEPATRA - Aonde quereis chegar?
     ANTNIO - Deixar que um tipo que recebe propinas e responde: "Que Deus vos recompense!" se mostre ntimo de minha companheira de folguedos, dessa mo, timbre 
real, penhor donoso de altivos coraes! Oh! se eu me achasse sobre o monte Basan, para mais alto mugir ainda do que os bois de chifre! Tenho razes selvagens para 
tanto. Moralmente aduzi-las fora como se um pescoo no lao ao seu carrasco agradecesse a grande habilidade. (Voltam os criados com Tireu.) Foi chibateado?
     PRIMEIRO CRIADO - Sim, senhor; de rijo.
     ANTNIO - Gritou? Pediu perdo?
     PRIMEIRO CRIADO - Pediu piedade.
     ANTNIO - Se teu pai vive, que ele se arrependa de no teres nascido filha dele. Enquanto a ti, reflete o que acontece aos que acompanham Csar em seu triunfo, 
Pois s por isso fostes azorragado. Fica com febre doravante,  vista das brancas mos de uma senhora; treme to-s de olhar para elas. Vai; retorna para Csar e 
dize como foste recebido por mim. V: vais dizer-lhe que irritado em excesso ele me deixa, por altivo mostrar-se e desdenhoso, a tocar sempre e sempre a mesma msica: 
o que sou, porm no - o que ele sabe muito bem - o que fui. Isso me irrita, o que ora  muito fcil, porque os astros benfazejos, meus guias at h pouco, vazias 
suas rbitas deixaram, disparando seus fogos to-somente nos abismos do inferno. Caso minhas palavras o exasperem, tudo o que houve, lembra-lhe que com ele se acha 
Hiparco, meu escravo liberto, que,  vontade, pode ele chibatear, pr a tormentos, enforcar... como queira, para quite ficar comigo. Pe bem depressa nisso. Fora 
daqui com essas pisaduras!
     (Sai Tireu.)
     CLEPATRA - J terminastes?
     ANTNIO - Ah! nossa terrena lua sofreu eclipse e s proclama o declnio de Antnio.
     CLEPATRA - Dar-lhe-ei tempo para que se refaa.
     ANTNIO - Podereis, para adular a Csar, lanar olhos morteiros para quem lhe amarra os laos?
     CLEPATRA - Desconheceis-me ainda?
     ANTNIO - Indiferente serdes comigo? Corao ter frio?
     CLEPATRA - Ah, querido! Se eu for assim, que deste corao frio o cu granizo faa e na fonte o envenene, e que a primeira pedra atingir me venha no pescoo, 
com minha vida, a um tempo, se esfazendo. Caia em Cesrio a outra, at que, aos poucos jazam todos os frutos de meu ventre sem sepultura, e meus egpcios bravos 
nessa alude de pedras, t que as moscas e os mosquitos do Nilo a todos eles dem a tumba das presas.
     ANTNIO - Basta-me isso. Csar est em frente a Alexandria, onde pretendo desafiar-lhe a sorte. Nossas foras de terra se portaram nobremente; os navios dispersados 
se reuniram de novo e ora navegam, os mares ameaando. Onde te achavas, meu corao? Escutas-me, senhora? Se eu voltar novamente da campanha para os lbios beijar-te, 
recoberto de sangue me vers. Eu e esta espada para a lenda entraremos. A esperana no se apagou de todo.
     CLEPATRA - s meu valente Senhor!
     ANTNIO - Sinto-me agora com trs vezes mais corao, com triplicado flego, com msculos dobrados para  luta me atirar com violncia. Quando as minhas horas 
eram risonhas e felizes, a vida os inimigos resgatavam com simples brincadeiras. Mas agora os dentes rangerei e para as trevas mandarei quem me vier barrar o passo. 
Vem! Aprestemos outra noite alegre; convoca os capites atribulados; mais uma vez enchamos nossas taas e zombemos do sino da alta noite.
     CLEPATRA - Hoje  meu natalcio. Imaginara que iria festej-lo pobremente. Mas, uma vez que meu senhor Antnio voltou a ser, eu tambm sou Clepatra.
     ANTNIO - Tudo h de melhorar.
     CLEPATRA - Dizei aos nobres capites que venham falar com meu senhor.
     ANTNIO - Manda cham-los. Isso mesmo. Desejo conserv-los Essa noite hei de dar-lhes tanto vinho, que vai jorrar at das cicatrizes. Vamos, rainha; ainda temos 
seiva. No prximo combate a prpria morte vai amar-me; pretendo concorrncia fazer ao seu pestilencial alfanje.
     (Saem todos, com exceo de Enobarbo.)
     ENOBARBO - Ofuscar pretende ele ora o relmpago. Ficar enfurecido  revelar-se assombrado de medo. Neste estado, contra o avestruz se atreve a prpria pomba. 
Verifico tambm que toda falha no crebro d nimo  coragem de nosso capito. Sempre que presa faz da razo a prpria valentia, corri a espada que  defesa serve. 
Vou procurar um meio de deix-lo. (Sai.)

      
ATO IV
Cena I
      
Diante de Alexandria. Acampamento de Csar. Entra Csar, lendo uma carta; Agripa, Mecenas e outras pessoas.
      
     CSAR - Chama-me de menino e me repreende, como se fora ele tivesse para do Egito me expulsar. Meu emissrio foi por ele aoitado. Desafia-me para um duelo: 
Antnio contra Csar. Pois que o velho bufo fique sabendo que eu sei de outros caminhos para a morte. Mas at l seu desafio apenas o riso me provoca.
     MECENAS - Csar deve considerar que quando uma pessoa to grande se revela assim furiosa, e que se sente acuada ao ponto extremo. No lhe deis trgua para refazer-se, 
mas procurai tirar todo o partido de sua distrao. Jamais a clera foi boa guardadora de si prpria.
     CSAR - Dizei aos capites que amanh cedo tencionamos travar a derradeira das numerosas pugnas da campanha. Entre nossas fileiras temos muitos que at bem 
pouco tempo ainda serviam a Marco Antnio, em nmero bastante para apossar-se da pessoa dele. Providenciai logo isso. Dai comida a nossos homens. Temos provimento 
e eles bem o merecem. Pobre Antnio!
     (Saem.)

      
Cena II
      
Alexandria. Um quarto no palcio. Entram Antnio, Clepatra Enobarbo, Charmian, Iras, Alexas e outras pessoas.
      
     ANTNIO - Domcio, no se bater comigo.
     ENOBARBO -  certo.
     ANTNIO - E por que no?
     ENOBARBO - Porque, julgando-se com sorte vinte vezes mais risonha, pensa que a luta, assim, travada fora de vinte contra um.
     ANTNIO - Em mar e em terra lutarei amanh; ou continuo com vida, ou banharei a moribunda glria em meu sangue, para que reviva. Pretendes lutar bem?
     ENOBARBO - Hei de bater-me gritando: "Toma tudo!"
     ANTNIO - Mui bem dito. Vamos; chama meus criados. Que haja mesa liberal esta noite. (Entram trs ou quatro criados.) D-me a mo. Honesto sempre foste. E eu, 
tambm. E tu, e tu... Vs sempre me servistes muito bem, tendo reis por companheiros.
     CLEPATRA ( parte, a Enobarbo) - Que  que ele quer?
     ENOBARBO ( parte, a Clepatra) -  uma dessas baldas que faz nascer do crebro a tristeza.
     ANTNIO - Tu tambm s honesto. Desejara poder ser dividido em muitos homens, e que vs num Antnio vos reunsseis, porque to bons servios vos prestasse como 
a mim tendes feito.
     CRIADOS - Oh! que os deuses no o permitam
     ANTNIO - Caros companheiros: servi-me ainda esta noite, no poupando minhas taas. Fazei comigo como se tambm um de vs fosse meu reino e as ordens me acatasse.
     CLEPATRA ( parte, a Enobarbo) - Que quer ele?
     ENOBARBO ( parte, a Clepatra) - Fazer que os criados chorem.
     ANTNIO - Servi-me ainda esta noite.  bem possvel que vossa obrigao a termine. Talvez no me vejais de novo, ou apenas como a sombra disforme; talvez a 
outro senhor ireis servir amanh mesmo. Olho-vos como algum que se despede. Meus fiis amigos, no vos mando embora; como amo, desposei vossos servios, de que 
s pela morte me separo. Servi-me ainda esta noite duas horas; mais no peo, e que os deuses vos premiem.
     ENOBARBO - Senhor, por que deix-los abatidos? Olhai, esto chorando, e eu, um grande asno, julgo tambm cebola ter nos olhos. Ora, ora! No faais de ns mulheres.
     ANTNIO - Ho, ho, ho! Leve-me a bruxa, se eu pensava nisso. Nasce a felicidade dessas gotas. Caros amigos, dais um doloroso sentido ao meu discurso; quanto 
eu disse foi com a inteno apenas de animar-vos, para a noite com tochas incendiardes. Sabei, meus coraes, que espero muito do dia de amanh, e que vos levo para 
onde hei de alcanar vida gloriosa, no a morte com honra. Para a ceia sigamos, e afoguemos a tristeza.
     (Saem.)

      
Cena III
      
O mesmo. Diante do palcio. Entram dois soldados, para ficarem de guarda.
      
     PRIMEIRO SOLDADO - Bom dia, irmo;  amanh o dia.
     SEGUNDO SOLDADO - Que vai decidir tudo. Passai bem. Ouviste algo estranho pelas ruas?
     PRIMEIRO SOLDADO - No ouvi coisa alguma. Que h de novo?
     SEGUNDO SOLDADO - Talvez seja s boato. Boa noite.
     PRIMEIRO SOLDADO - Pois no, senhor; o mesmo vos desejo.
     (Entram dois outros soldados.)
     SEGUNDO SOLDADO - Prestai muita ateno durante a guarda.
     TERCEIRO SOLDADO - Vs tambm. Boa noite. Boa noite.
     (Os dois primeiros soldados se colocam em seus lugares.)
     QUARTO SOLDADO - Ns dois, aqui. (Colocam-se tambm nos seus.) Caso amanh a armada leve a melhor, tenho esperana plena de que as foras de terra fiquem firmes.
     TERCEIRO SOLDADO -  um exrcito bravo e decidido.
     (Msica subterrnea, como de obos.)
     QUARTO SOLDADO - Paz! Que barulho  esse?
     PRIMEIRO SOLDADO - Ouvi! Ouvi!
     SEGUNDO SOLDADO - Ouvi!
     PRIMEIRO SOLDADO - Msica no ar.
     TERCEIRO SOLDADO - No, sob a terra.
     QUARTO SOLDADO -  bom sinal, pois no?
     TERCEIRO SOLDADO - No.
     PRIMEIRO SOLDADO - Paz, vos digo. Por que ser essa msica?
     SEGUNDO SOLDADO -  o deus Hrcules to amado de Antnio e que o abandona.
     PRIMEIRO SOLDADO - Vamos saber se os outros guardas ouvem o que estamos ouvindo.
     (Adiantam-se para o outro posto.)
     SEGUNDO SOLDADO - Ento, amigos?
     SOLDADOS - Que  que h! Que  que h? Ouvis alguma coisa?
     PRIMEIRO SOLDADO - Ouvimos; no  estranho?
     TERCEIRO SOLDADO - Estais ouvindo, mestres? Estais ouvindo?
     PRIMEIRO SOLDADO - Acompanhemos o rudo at onde for a guarda. Vejamos como acaba.
     SOLDADOS - Certo.  estranho.
     (Saem.)

      
Cena IV
      
O mesmo. Um quarto no palcio. Entram Antnio e Clepatra, Charmian e outros servidores
      
     ANTNIO - Eros, minha armadura.
     CLEPATRA - Dorme um pouco.
     ANTNIO - No, pombinha. Vem, Eros! A armadura! (Entra Eros, com a armadura.) Vamos, amigo; veste-me esses ferros. Se hoje a fortuna no ficar conosco,  porque 
a desafiamos. Vamos logo.
     CLEPATRA - No, eu a ajudo. Para que serve isto?
     ANTNIO - No, deixa isso, s o armeiro do meu peito. Errado! Errado!...  assim.
     CLEPATRA - Devagarinho, quero ajudar tambm. Deve ser isto.
     ANTNIO - Muito bem; muito bem. D tudo certo. Vos, bom amigo? Agora vai armar-te.
     EROS - Sem demora, senhor.
     CLEPATRA - Afivelado no ficou tudo bem?
     ANTNIO - Otimamente. Quem vier desfazer isto, antes de termos resolvido gozar de algum repouso, colher tempestades. No tens jeito, Eros, nenhum; minha rainha 
mostra-se escudeiro mais hbil. Vamos logo.  amor! no te ser possvel hoje ver-me lutar e compreender um pouco da real atividade! Ento verias um verdadeiro mestre. 
(Entra um soldado armado.) A ti, bom dia. Bem vindo sejas. Mostras pelo aspecto que conheces o ofcio dos guerreiros. Cedo nos levantamos para quanto dedicamos amor 
e, mui contentes, a tarefa iniciamos.
     SOLDADO - Um milheiro de soldados, senhor, desde bem cedo, como eu, vestiram-se de ferro e aguardam  porta vossas ordens.
     (Ouvem-se exclamaes. Fanfarra.)
     (Entram capites e soldados)
     CAPITO - Radiosa est a manh. Muito bom dia, general.
     TODOS - General, muito bom dia.
     ANTNIO - Boa msica, amigos. Esse dia comea com o esprito de um jovem que promete ser grande desde cedo. Assim... D-me isso... Bem. Muito bem dito. Senhora, 
adeus. Seja qual for meu dia, eis um beijo marcial. (Beija-a.) Fora mostrar-me passvel de censura, digno mesmo de crtica oprobriosa, por mais tempo ficar aqui 
sem cumprimentos baixos. Como homem de ao vou deixar-te agora. Os que quiserem ir lutar, me sigam, pois saberei gui-los. Bem; adeus.
     (Saem Antnio, Eros, o capito e os soldados.)
     CHARMIAN - Por favor retirai-vos para o quarto.
     CLEPATRA - Conduze-me. Partiu galantemente. Oh! se ele e Csar esta grande guerra decidissem em luta corpo a corpo! Ento, Antnio... Mas assim... Que seja!
     (Saem.)

      
Cena V
      
Alexandria. Acampamento de Antnio. Toque de trombeta. Entram Antnio e Eros; um soldado avana ao encontro de ambos.
      
     SOLDADO - Que hoje os deuses a Antnio dem bom dia.
     ANTNIO - Ah! quem me dera que eu te houvesse ouvido, quando instavas, com essas cicatrizes, para eu lutar em terra!
     SOLDADO - Se o tivesses feito, os monarcas que se revoltaram contra ti, e o soldado que hoje cedo te abandonou, contigo seguiriam.
     ANTNIO - Quem fugiu hoje cedo?
     SOLDADO - Quem? Pessoa muito chegada a ti. Chama Enobarbo, que ele no te ouvir, ou ento, do campo de Csar, te dir: "No sou dos teus."
     ANTNIO - Que me dizes?
     SOLDADO - Senhor, est com Csar.
     EROS - Senhor, suas canastras e tesouros, ele deixou aqui.
     ANTNIO - Ento partiu?
     SOLDADO - Nada mais certo.
     ANTNIO - Envia-lhe, Eros, tudo, todo o tesouro. Sim, faze isso logo,  o que te digo. Escreve-lhe uma carta - assin-la-ei - com cordiais adeuses e cumprimentos, 
e que fao voto para que ele jamais tenha motivo de uma vez mais vir a mudar de mestre. Oh! minha sorte infausta chegou mesmo a corromper os bons. Vai. Enobarbo!

      
Cena VI
      
Diante de Alexandria. Acampamento de Csar. Fanfarra. Entra Csar com Agripa, Enobarbo e outros.
      
     CSAR - Vai, Agripa; inicia logo a luta. Meu desejo  que Antnio seja feito prisioneiro; fazei sab-lo a todos.
     AGRIPA - Perfeitamente, Csar. (Sai.)
     CSAR - Aproxima-se a paz universal. Se o dia de hoje for venturoso, o mundo de trs cantos levar livre o ramo de oliveira.
     (Entra um mensageiro.)
     MENSAGEIRO - Antnio est no campo de batalha.
     CSAR - Ento ordena a Agripa que coloque todos os desertores na vanguarda, para que, de algum modo, Antnio gaste contra si mesmo a fria.
     (Sai Csar com seu sqito.)
     ENOBARBO - Alexas desertou; indo  Judia a negcios de Antnio, o grande Herode persuadiu a passar-se para Csar, abandonando seu senhor Antnio. Como prmio, 
enforc-lo mandou Csar. Candio e os mais que a Antnio abandonaram, tm tratamento, mas no muito honroso. Procedi muito mal e disso mesmo de tal modo me acuso, 
que impossvel me ser readquirir minha alegria.
     (Entra um soldado de Csar.)
     SOLDADO - Enobarbo, mandou-te, Antnio toda tua riqueza, com mais outras ddivas generosas. O portador achou-me no meu posto de guarda; neste instante em tua 
tenda descarrega as mulas.
     ENOBARBO - Podes ficar com tudo.
     SOLDADO - Ests pensando que  pilhria, Enobarbo? Falo srio. Farias bem em escoltar teu hspede at fora do campo, que eu preciso cuidar da obrigao. Se 
no fora isso, eu prprio o acompanhara. Continua sendo um Jpiter vosso imperador. (Sai.)
     ENOBARBO - Sou o nico vilo de toda a terra, e sinto-o fundamente.  Antnio! Antnio! tesouro inesgotvel de favores! Como no pagarias meus servios, se 
coroas com ouro a vilania? Partem-me o corao tantos abalos. Se o remorso veloz no o arrebenta. h de haver meio mais veloz do que ele. Mas  certeza: s o remorso 
basta. Eu, lutar contra ti? De forma alguma. Hei de achar uma fossa onde enterrar-me; a mais imunda  a que convm a ltima parte de minha vida. (Sai.)

      
Cena VII
      
Campo de batalha entre os dois acampamentos. Fanfarra. Tambores e trombetas. Entram Agripa e outros.
      
     AGRIPA - Convm recuar, pois avanamos muito. O prprio Csar v-se assoberbado. Vai muito alm de nossa expectativa a presso que eles fazem.
     (Saem.)
     (Alarma. Entram Antnio e Escaro, ferido.)
     ESCARO - Oh bravo imperador! Isto, realmente,  que  saber lutar! Se ns tivssemos feito assim desde o incio, enxotaramos todos eles com a testa amarrotada.
     ANTNIO - Ests sangrando muito.
     ESCARO - Esta ferida tinha a forma de um T; mas, acrescida de outra, virou H.
     ANTNIO - Eles recuam.
     ESCARO - Havemos de bat-los, at mesmo no interior das privadas. Ainda tenho lugar para levar mais seis gilvazes.
     (Entra Eros.)
     EROS - Vencemo-los, senhor; nossa vantagem vale por uma esplndida vitria.
     ESCARO - Risquemo-lhes as costas e agarremo-los como se faz com as lebres: pelo dorso.  desporto malhar um fugitivo
     ANTNIO - Hei de pegar-te o gnio sempre alegre e premiar-lhe dez vezes a bravura. Acompanhai-me.
     ESCARO - Irei; embora aos pulos.
     (Saem.)

      
Cena VIII
      
Junto aos muros de Alexandria. Fanfarra. Entra Antnio, em marcha militar, seguido de Escaro e de soldados.
      
     ANTNIO - Foramo-lo a acolher-se ao prprio campo. V algum na frente para nossos feitos anunciar  rainha. Amanh cedo, antes de o sol nos ver, derramaremos 
o sangue que deixou de correr hoje. A todos agradeo. Valorosos vos mostrardes, lutando no apenas como se a causa de outrem defendsseis, mas cada um, tal como 
eu, a causa prpria. Outros tantos Heitores pareceis. Entrai um pouco na cidade, vossas esposas abraai, vossos amigos. Contai-lhes vossos feitos. Ledas lgrimas 
vos limparo de cogulos as chagas, beijos faro sarar os nobres talhos. (A Escaro.) D-me a mo. (Entra Clepatra, com sqito.) A esta fada extraordinria recomendo 
teus feitos. Recompensem-te seus agradecimentos. Luz do mundo, em teus braos aperta-me o pescoo. Salta-me ao corao com todos esses adornos, atravs desta couraa, 
e l te embala no pular glorioso.
     CLEPATRA - Rei dos reis, herosmo sem limites, sorridente escapaste da cilada gigantesca do mundo?
     ANTNIO - Meu querido rouxinol, para a cama os expulsamos. Ento, menina, embora uns fios brancos j se mostrem no meio dos castanhos, crebro temos que alimenta 
os nervos e com os moos disputa a primazia. Contempla este guerreiro; aos lbios dele concede tua mo. Beija-a, meu bravo. Hoje ele combateu como se um deus, por 
dio  humanidade, lhe tivesse tomado a forma para dizim-los.
     CLEPATRA - Vou dar-te, amigo, uma armadura de ouro; pertenceu a um monarca.
     ANTNIO - Ele a merece, embora de rubis fosse ela cheia, como o sagrado carro do alto Febo. D-le tua mo; faze uma bela marcha por toda Alexandria, carregando 
nossos escudos de to grandes brechas, como seus prprios donos. Se pudesse nosso grande palcio abrigar todos os seus soldados, juntos cearamos e brinde levantaramos 
ao dia de amanh, que perigo rgio apresta. Trombeteiros, com vosso som metlico ensurdecei o ouvido da cidade, de mistura com o rufo dos tambores, para que o cu 
e a terra soem juntos e nossa marcha aplaudam.
     (Saem.)

      
Cena IX
      
Acampamento de Csar. Sentinelas a postos.
      
     PRIMEIRO SOLDADO - Dentro de uma hora, se no nos renderem, ser preciso que nos recolhamos para o corpo da guarda. H claridade; s duas horas da manh, disseram, 
ser iniciada a pugna.
     SEGUNDO SOLDADO - O dia de ontem foi para ns terrvel.
     (Entra Enobarbo.)
     ENOBARBO - Noite, serve-me de testemunha!
     TERCEIRO SOLDADO - Quem ser esse homem?
     SEGUNDO SOLDADO - Ficai perto e escutai.
     ENOBARBO -  lua santa, quando em futuro forem relembrados com memria odiosa os desertores, testemunha me sejas de que em tua face o pobre Enobarbo se arrepende.
     PRIMEIRO SOLDADO - Enobarbo!
     TERCEIRO SOLDADO - Silncio! Ouamos mais.
     ENOBARBO -  grande soberana das tristezas verdadeiras, em mim despeja todos os vapores pestferos da noite, porque a vida, j agora divorciada de meu querer, 
em mim no mais se prenda. Joga meu corao de encontro  rocha e  dureza de minha grande falta, que, ressecado estando de tristeza, vai transformar-se em p, dando 
remate, desta arte, aos pensamentos vergonhosos.  Antnio - mais nobre s do que vilssima foi minha desero - possas em tua alma perdoar o que te fiz e, aps, 
que o mundo me inscreva em seu registo como trnsfuga e ingrato ao prprio dono. Oh Antnio, Antnio! (Morre.)
     SEGUNDO SOLDADO - Vamos falar-lhe.
     PRIMEIRO SOLDADO - No; fiquemos quietos. A Csar pode interessar tudo isso.
     TERCEIRO SOLDADO - Bem; que seja. Parece estar dormindo.
     PRIMEIRO SOLDADO - Ou melhor, desmaiou, pois ningum reza dessa maneira, quando vai deitar-se.
     SEGUNDO SOLDADO - Vamos cham-lo.
     TERCEIRO SOLDADO - Ol, senhor, falai-nos! Meu senhor, acordai!
     SEGUNDO SOLDADO - Estais ouvindo?
     PRIMEIRO SOLDADO - A mo da morte j baixou sobre ele. (Tambor ao longe.) Ouvi! O rufo dos tambores deixa despertos os que dormem. Tranportemo-lo para o corpo 
da guarda.  gente fina. J passou nosso quarto.
     TERCEIRO SOLDADO - Vamos, ainda pode voltar a si.
     (Saem carregando o corpo.)

      
Cena X
      
Plancie entre os dois acampamentos. Entram Antnio e Escaro, com foras, em marcha.
      
     ANTNIO - Hoje os preparativos deles visam a um combate no mar; no lhes deixamos boa impresso em terra.
     ESCARO - Visam a ambos, meu senhor.
     ANTNIO - Desejara que quisessem brigar no ar e no fogo que eu iria bat-los at l. Mais eis o ponto: a Infantaria ficar conosco na colina mais perto da cidade. 
Para o mar j dei ordens. Os navios o porto abandonaram, colocando-se onde melhor possamos observ-los e ver como manobram.
     (Saem.)
     (Entra Csar com suas foras, em marcha.)
     CSAR - Se no nos atacarem, ficaremos quietos em terra, que  como pensamos que vai acontecer, pois as galeras ele equipou com seus melhores homens. Desamos 
para o vale. Sede atento para quanto nos possa dar vantagem.
     (Saem.)
     (Voltam Antnio e Escaro.)
     ANTNIO - Ainda no se chocaram. De onde aquele pinheiro se ala poderei ver tudo. Logo virei contar-te o que acontece. (Sai.)
     ESCARO - Nas antenas de Clepatra construram ninhos as andorinhas. Consultados, os ugures respondem que no sabem, que no podem falar, fazem carranca, no 
se atrevendo a revelar-nos nada. Antnio ora  valente, ora abatido, com sobressaltos, sua sorte inquieta lhe infunde medo ou o deixa reanimado, conforme considere 
o que j obteve ou o que falta alcanar.
     (Barulho ao longe, como de batalha naval.)
     (Volta Antnio.)
     ANTNIO - Perdido tudo! Traiu-me a Egpcia infame; minha esquadra se passou para o imigo; os marinheiros jogam para o ar os gorros e, formando grupos ali, alegremente 
bebem como amigos h muito separados. Trs vezes prostituta! fui vendido por ti a esse novio. A ti, somente, meu corao faz guerra. Dize a todos que fujam, pois 
quando eu puder vingar-me da feiticeira, terei feito tudo. Dize a todos que fujam. Vai depressa. (Sai Escaro.)  sol! no mais verei teu nascimento. Antnio e sua 
sorte aqui se apartam; as mos nos apertamos neste ponto. Chegaremos a isto? Os coraes que vinham rastejar a meus ps, como sabujos, aos quais eu sempre fiz todos 
os gostos, agora se dispersam, derramando sobre o flrido Csar seus perfumes. E fendido se encontra este pinheiro que a todos abrigava. Fui trado. O corao enganador 
do Egito, fatal feitio cujos olhos sempre me armavam para a guerra ou me faziam dela sair, em cujo peito eu tinha minha coroa, a meta da existncia! tal como uma 
cigana, em enganaste de todo jeito e me lanaste ao prprio corao da desgraa! Eros! Eros! (Entra Clepatra.) Para trs, malefcio!
     CLEPATRA - Por que se acha com seu amor o meu senhor zangado?
     ANTNIO - Some de minha vista; do contrrio, dar-te-ei o que mereces, estragando o triunfo, assim, de Csar. Que te pegue, que te exponha aos apupos da canalha! 
Vai atrs de seu carro, como a grande mancha de todo o sexo. Por um bolo, pela menor entrada sers vista como um dos monstros mais caractersticos; e que com suas 
unhas bem afiadas a meiga Otvia te lacere o rosto. (Sai Clepatra.) Fizeste bem fugindo, se se pode dizer assim, por continuares viva. Fora melhor que presa ora 
te visses de minha fria, que tua morte, apenas, prevenira muitas. Eros! Eros! A camisa de Nessus me comprime. Alcides, meu antepassado, ensina-me tua clera! Deixa 
que nos cornos da lua eu ponha Licas, e com esta mesma mo que brandiu a dava ingente a melhor parte de mim prprio extinga. Que morra a feiticeira! Ela vendeu-me 
para o jovem romano; caio vtima da conjura dos dois. Morra por isso. Eros, ol! (Sai.)

      
Cena XI
      
Alexandria. Um quarto no palcio. Entram Clepatra, Charmian, Iras e Mardian.
      
     CLEPATRA - Auxiliai-me, querida. Ele se acha mais louco do que o prprio Telamnio, quando perdeu o escudo. O javali da Tesslia jamais ficou to bravo.
     CHARMIAN - No mausolu fechai-vos e mandai-lhe dizer que j morrestes. A alma e o corpo no lutam com mais fora ao se apartarem, como a grandeza, quando vai 
embora.
     CLEPATRA - Sim, para o tmulo. Vai, Mardian; dize-lhe que eu me matei. Deves tambm contar-lhe que, ao expirar, minha ltima palavra foi "Antnio". Mas, por 
favor, exprime-te com bastante nfase. Vai, Mardian, logo, e vem contar-me de que modo a nova recebeu dessa morte. Para o tmulo!
     (Saem.)

      
Cena XII
      
O mesmo. Outro quarto. Entram Antnio e Eros.
      
     ANTNIO - Eros, ainda me vs?
     EROS - Sim, nobre chefe.
     ANTNIO - s vezes contemplamos uma nuvem que parece drago; s vezes forma toma o vapor de leo ou feroz urso, de cidade com torres, pedra ingente de promontrio 
azul coroado de rvores, que oscila sobre o mundo, e nossa vista deixa atemorizada sem motivo. Sinais como esses j tens visto muitos; so fantasmas das tardes enubladas.
     EROS - Sim, meu senhor, j vi.
     ANTNIO - O que um ginete parecia transformar-se, no instante de refletires, e desaparece como gua na prpria gua.
     EROS - Justamente.
     ANTNIO - Eros, bravo menino, um corpo desses agora  o teu senhor. Ainda Antnio sou neste instante, mas durar no pode muito tempo esta forma que aparece. 
Fiz as guerras do Egito. Mas Clepatra, no entanto - cujo corao meu era, pois o meu era dela, e em todo o tempo que foi meu anexava muitos outros, um milho mais... 
todos perdidos todos - ela, Eros, como disse, jogou cartas com Csar e roubou minha alta glria, para triunfar do imigo. No, no chores, meu gentil Eros, pois nos 
resta ainda darmos fim a ns prprios. (Entra Mardian.) Tua vil ama me roubou a espada!
     MARDIAN - No, Antnio; minha ama te adorava e a sorte dela entrelaou com a tua.
     ANTNIO - Fora daqui, eunuco imundo! Fora! Ela traiu-me e vai morrer por isso.
     MARDIAN - Ningum duas vezes paga  morte a dvida. A dela j est paga. O que querias fazer foi feito perto de ti mesmo Sua ltima palavra foi "Antnio! meu 
muito nobre Antnio!" um lacerante gemido em dois partiu de Antnio o nome, que ficou dividido entre seus lbios e o corao. Assim perdeu a vida, sepultando teu 
nome nela prpria.
     ANTNIO - Ento, morreu?
     MARDIAN - Morreu.
     ANTNIO - Eros, desarma-me. A tarefa do dia est concluda, precisamos dormir. (A Mardian.) Parte com vida; paga-te isso o trabalho ricamente. (Sai Mardian.) 
Arranca-me tudo isto. Nem o escudo de Ajaz, de sete folhas, poderia conter os batimentos com que ao peito me ataca o corao. flancos, abri-vos! Corao, uma vez 
somente mostra-te mais poderoso do que teu invlucro, arrebentando tua frgil caixa. Depressa, Eros, depressa! O combatente j se extinguiu. Ide, pedaos soltos; 
fostes usados com alguma honra. Eros, deixa-me s por uns momentos. (Sai Eros.) Vou alcanar-te, Clepatra, e, com lgrimas, obter o meu perdo. Tem de ser isso; 
qualquer tardana, agora,  sofrimento. Extinta a tocha, deita-te, deixando de andar por descaminhos. Todo esforo, de agora em diante estragaria a obra. At o prprio 
vigor se embaraara na resistncia prpria. Pe o selo, e tudo est acabado. Eros, atende-me! - J vou, minha rainha! - Eros, escuta-me! Onde as almas repousam sobre 
flores, mo com mo ns iremos, e os espectros deixaremos atnitos com nossa postura apaixonada. Sem cortejo vai ficar Dido e seu querido Enas, correndo todos 
para ns. Vem, Eros!
     (Volta Eros.)
     EROS - Que deseja meu amo?
     ANTNIO - Desde a morte de Clepatra to baixa  a minha vida que somente asco tem causado aos deuses. Eu que com a espada o mundo retalhava e construda cidades 
de navios no glauco dorso de Netuno, agora me maldigo por ver que sou mais fraco que uma mulher e por no ter o esprito nobre daquela que por sua morte ao nosso 
Csar disse: "De mim prpria fui a conquistadora." Prometeste-me, Eros, que quando fosse necessrio - o que acontece justamente agora - e nas costas eu visse a inevitvel 
perseguio do horror e da desgraa, a um sinal meu a vida me tiraras. Faze isso. Chegou a hora. No me feres, assim fazendo; a Csar  que frustras. Pe um pouco 
de cor nessas bochechas.
     EROS - Os deuses que me amparem! Poderia fazer o que jamais as flechas partas, apesar de inimigas, conseguiram, falhando todas o alvo?
     ANTNIO - Eros, querias de uma janela da grandiosa Roma ver teu amo de braos amarrados, o submisso pescoo assim dobrado, a fronte baixa ante a vergonha imensa, 
enquanto roda  frente dele o carro do venturoso Csar, mais relevo dando com isso  sua humilhao?
     EROS - No desejara v-lo.
     ANTNIO - Ento vem logo; um golpe, s, me vai deixar curado. Saca essa honesta espada, que servios to valiosos j tem prestado  ptria.
     EROS - Oh! poupai-me, senhor!
     ANTNIO - Ao libertar-te, no me juraste que farias isso no instante em que o pedisse? Ento s pronto, para que teus servios no paream frutos do acaso, 
apenas, sem propsito. Saca da espada e vem.
     EROS - Bem; nesse caso virai para o outro lado o nobre aspecto, em que o respeito est do mundo todo.
     ANTNIO (virando-se) - Vem logo, ento.
     EROS - J estou de espada em punho.
     ANTNIO - Usa-a depressa para o que a tiraste.
     EROS - Meu caro mestre, capito querido, meu caro imperador, deixai que eu diga, antes de dar esse sangneo golpe, deixai que eu diga adeus.
     ANTNIO - Pois, no, amigo; adeus.
     EROS - Adeus, meu chefe. Posso ferir agora?
     ANTNIO - Podes, Eros.
     EROS - Ento, que seja. Assim fujo  tristeza de lastimar Antnio. (Mata-se.)
     ANTNIO - Oh! trs vezes mais nobre do que eu mesmo. Meu valente Eros, mostra-me o que eu prprio, no tu, fazer devia. O gesto altivo de Eros e da rainha me 
fizeram despertar a nobreza. Mas desejo ser o noivo da morte e dirigir-me para ela como para o leito amado. Que venha, ento. E assim, Eros, teu amo deixar a vida 
como teu discpulo. A fazer isto me ensinaste. (Deixa-se cair sobre a espada.) Como! No morri? No morri? Ol! A guarda! Oh! Acabai de vez com minha vida.
     (Entram Dercetas e Guardas.)
     PRIMEIRO GUARDA - Quem faz esse barulho?
     ANTNIO -  meus amigos, fiz mal o meu trabalho. Dai remate a quanto principiei.
     SEGUNDO GUARDA - Baixou a estrela.
     PRIMEIRO GUARDA - E chega ao fim o tempo.
     TODOS - Oh! que desgraa!
     ANTNIO - Quem me amar, venha dar-me o mortal golpe.
     PRIMEIRO GUARDA - Eu, no.
     SEGUNDO GUARDA - Nem eu.
     TERCEIRO GUARDA - Nenhum de ns, por certo.
     (Saem os guardas.)
     DERCETAS - Tua morte e os desastres afugentam teus seguidores. Basta que esta espada leve eu a Csar e lhe d a nova, para por ele ser bem recebido.
     (Entra Diomedes.)
     DIOMEDES - Onde est Antnio?
     DERCETAS - Aqui, aqui, Diomedes.
     DIOMEDES - Est com vida? No respondes, homem?
     (Sai Dercetas.)
     ANTNIO - Estais a, Diomedes? Tira a espada e vem ferir-me at chegar a morte.
     DIOMEDES - Alto senhor, aqui mandou-me Clepatra.
     ANTNIO - Quando foi isso?
     DIOMEDES - Agora, meu senhor.
     ANTNIO - Onde ela est?
     DIOMEDES - Fechou-se no sepulcro. Tomada viu-se de um pressentimento angustioso do que podia dar-se. Pois ao certificar-se - o que impossvel ser que se confirme 
- de que tnheis suspeita de ter ela combinado qualquer coisa com Csar - e incurvel era vosso furor - mandou dizer-vos que se havia matado. Mas, receando as conseqncias 
da notcia, logo me enviou para dizer-vos a verdade. Mas temo ter chegado muito tarde.
     ANTNIO - Sim, bondoso Diomedes, muito tarde. Por favor, chama a guarda.
     DIOMEDES - Ol! a guarda do Imperador! A guarda! vinde logo; o senhor  que chama!
     (Entram quatro ou cinco homens, da guarda de Antnio.)
     ANTNIO - Bons amigos, levai-me para onde est Clepatra.  o ltimo servio que vos peo.
     PRIMEIRO GUARDA - Que desgraa, senhor, no terdes vida para a ns todos at o fim dar ordens.
     TODOS - Que dia carregado!
     ANTNIO - Bons amigos, no deixeis que o destino amargo ria de vossas dores. Deve ser bem-vindo o que venha punir-vos; e punamo-lo, por nosso lado, recebendo-o 
alegres. Levantai-me. J vos guiei bastante; agora me arrastai, caros amigos. Por tudo, agradecido.
     (Saem, levando Antnio.)

      
CENA XIII
      
O mesmo. Um tmulo. Em cima entra Clepatra com seu sqito, Charmian e Iras.
      
     CLEPATRA - Oh Charmian! Nunca mais sairei daqui.
     CHARMIAN - Consolai-vos, embora.
     CLEPATRA - No, no quero. Ser bem-vindo quanto for terrvel e extraordinrio. Desprezamos toda palavra de consolo. Nossa forma de tristeza, medida por sua 
causa, ter de ser proporcionada sempre com o que a fez nascer. (Entra, em baixo, Diomedes.) Ento! Morreu?
     DIOMEDES - Paira sobre ele a morte, mas ainda no est morto. Olhai para o outro lado do vosso monumento; os guardas dele o trazem para aqui.
     (Entra, em baixo, Antnio, carregado pelos guardas.)
     CLEPATRA -  sol, abrasa a grande esfera em que te moves, deixa sem luz a estrela deste mundo vrio! Oh Antnio, Antnio, Antnio! Acode, Charmian! Iras, acode! 
Amigos a de baixo, ajudai a traz-lo para cima.
     ANTNIO - Silncio! No foi Csar e sua fora que derrubou Antnio, mas Antnio de si prprio triunfou.
     CLEPATRA - Assim devia, realmente, acontecer. Somente Antnio conquistaria Antnio. Mas  lstima que tal se desse.
     ANTNIO - Morro, Egito; morro. S por um pouco aqui detenho a morte, at que eu possa, de um milho de beijos, dar-te nos lbios o ltimo, o mais pobre.
     CLEPATRA - A descer no me atrevo, meu querido - Oh meu senhor, perdo! - No, no me atrevo, com medo de ser presa. No cortejo do sobremodo afortunado Csar 
jamais virei a ser qualquer enfeite. Se as facas, as serpentes e os venenos tiverem corte, acleo ou eleito certo, salva estarei. Vossa consorte Otvia, com seu 
gesto tranqilo e olhos modestos no vai enaltecer-se, contemplando-me e torcendo o nariz. Mas vem, Antnio! Mulheres, ajudai-me! Precisamos p-lo aqui em cima. 
Vinde, bons amigos.
     ANTNIO - Depressa, se no morro.
     CLEPATRA - Que exerccio! Como pesais, senhor! A nossa fora mudou-se em pesadume, contribuindo para aumentar o peso. Se eu tivesse todo o poder da majestosa 
Juno, a resistncia de Mercrio alado, iria levantar-te, colocando-te lado a lado de Jove. Vem um pouco. Quem faz votos  tola. Vem, vem, vem! (Colocam Antnio no 
alto, ao lado de Clepatra.) S bem-vindo, bem-vindo. Vem o esprito exalar justamente onde viveste. Reanima-te com beijos; se meus lbios tivessem tal poder, eu 
os gastara.
     TODOS - Oh! que triste espetculo!
     ANTNIO - Estou morrendo, Egito; estou morrendo. D-me um pouco de vinho, porque possa falar ainda um pouco.
     CLEPATRA - No, eu falo; e em voz to alta farei minhas queixas, que a senhora Fortuna, sempre falsa, a roda quebrar, de enraivecida, pelo que lhe disser.
     ANTNIO - Uma palavra, doce rainha: segurana e honra procura junto a Csar.
     CLEPATRA - Nunca juntas andam as duas.
     ANTNIO - Ouve-me, querida: dos que circundam Csar, no confies seno em Proculejo.
     CLEPATRA - S confio nas minhas mos, no brio muito prprio; em ningum junto a Csar.
     ANTNIO - No choreis a mudana lastimosa que em meu fim se observou; no seja causa de vos entristecerdes; mas de minha sorte anterior alimentai o esprito, 
quando eu era o maior senhor do mundo, o de maior nobreza, que nesta hora no morre baixamente. No com medo ao meu patrcio entrego o capacete; por um romano foi 
heroicamente dominado um romano. Meu esprito j me abandona. Mais, no me  possvel.
     CLEPATRA - Oh! Vais morrer, criatura nobilssima? De mim no fazes caso?  ento preciso que eu permanea neste mundo estpido que, privado de ti, valer tanto 
como simples cocheira? Oh! vede, vede, mulheres, o que passa. (Antnio morre.) Derreteu-se a coroa da terra. Meu Senhor! Murcha a grinalda dos combates se acha; 
o estandarte caiu. No mesmo nvel dos homens esto moos e meninas; planificou-se tudo, no ficando na terra nada mais que se destaque nas visitas da lua. (Desmaia.)
     CHARMIAN - Calma, calma, minha senhora.
     IRAS - Nossa soberana tambm morreu.
     CHARMIAN - Senhora!
     IRAS - Ol, princesa!
     CHARMIAN - Oh princesa! princesa!
     IRAS - Real Egito! Imperatriz!
     CHARMIAN - Calma, Iras; fica quieta.
     CLEPATRA - Agora sou uma mulher apenas, por paixes dominadas, como criada do estbulo, ocupada em vis misteres. Jogar agora me cumpria o cetro nos deuses 
maliciosos e dizer-lhes que nosso mundo igual ao deles era enquanto eles privado no nos tinham de nossa jia rara. Tudo  nada. A pacincia  estpida; a impacincia 
s fica bem para um cachorro louco. Ser crime correr para a secreta casa da morte sem chamados sermos? Mulheres, que fazeis? Vamos? Coragem! Charmian, que  isso? 
Nobres raparigas... Ah! meninas, meninas! Vede: nossa lmpada se apagou; estava exausta. Coragem, bons amigos. Vamos logo cuidar da morte dele. Aps, nos resta fazer 
o que for nobre e muito ousado, segundo a moda altssima de Roma, porque de ns possa orgulhar-se a morte. Vamos embora. J est frio o invlucro deste esprito 
nobre.  minhas caras, vamos embora, vamos! S nos resta, depois disto, um auxlio sempre  mo: um fim rpido e pronta deciso.
     (Saem carregando o corpo de Antnio.)

      
ATO V
Cena I
      
Alexandria Acampamento de Csar. Entram Csar. Agripa, Dolabela, Mecenas, Galo, Proculeio e outros.
      
     CSAR - Vai Dolabela, procur-lo; intima-o a que se renda e dize-lhe que, estando to por baixo, s faz tornar-se objeto de mofa, por perder todo esse tempo.
     DOLABELA - Csar, assim farei. (Sai.)
     (Entra Dercetas com a espada de Antnio.)
     CSAR - Que significa tal coisa, e quem s tu para atreveres-te a aparecer assim em nossa frente?
     DERCETAS - Sou chamado Dercetas; no servio de Marco Antnio estive, o homem mais digno de ser mais bem servido. Enquanto esteve de p e ordens me dava, foi 
meu amo, fazendo eu uso, s, de minha vida contra seus inimigos. Se quiseres receber-me tal como eu fui para ele, assim servirei Csar; do contrrio, te entrego 
minha vida.
     CSAR - Que disseste?
     DERCETAS - Digo, Csar, que Antnio j est morto.
     CSAR - A queda de uma coisa desse porte deveria fazer maior barulho. Em todo o mundo os lees correr deviam para o meio das ruas, procurando suas covas os 
homens da cidade. O trespasse de Antnio no  um caso particular, pois esse nome abrange metade do universo.
     DERCETAS - J est morto, Csar; no pelo brao da justia pblica, nem por ferro assalariado. A prpria mo que em feitos altanados escreveu sua glria, com 
a coragem que o corao lhe dava, lacerado lhe deixou o corao. Eis sua espada que eu roubei de seu golpe; podes v-la manchada com seu sangue muito nobre.
     CSAR - Amigos, ficais tristes? Tal notcia - embora os deuses possam castigar-me - at os olhos dos reis deixa molhados.
     AGRIPA -  estranho que nos force a natureza a chorar o que mais obter queramos.
     MECENAS - Seus defeitos e mritos se achavam em perfeito equilbrio.
     AGRIPA - Nunca esprito mais raro dirigiu a raa humana; mas com faltas,  deuses! nos fizestes, a fim de que pudssemos ser homens. Csar est abalado.
     MECENAS - Quando pem diante dele um espelho desse porte, foroso  que se mire.
     CSAR -  Antnio! Antnio! para isso te segui? Mas lancetamos certas doenas do corpo. Inevitvel era mostrar-te um dia de declnio, ou contemplar o teu. Juntos 
no fora possvel que coubssemos no mundo. Mas quero lastimar com estas lgrimas to soberanas como o prprio sangue do corao, que, meu irmo, meu mulo no alto 
de toda empresa, igual no mando, amigo e companheiro nas batalhas, o brao deste corpo e o corao em que meu pensamento se aquecia, os nossos astros irreconciliveis 
nos hajam dividido, embora fssemos to iguais. Bons amigos, escutai-me. (Entra um egpcio.) No; depois voltaremos a esse ponto. Nas feies a mensagem traz este 
homem. Ouamo-la. Da parte de quem vens?
     EGPCIO - Uma pobre mulher egpcia, a minha senhora e soberana, confinada a tudo que ora  dela - o prprio tmulo - deseja conhecer os teus projetos, porque 
enveredar possa pela estrada a que seguir a foram.
     CSAR - Tranqiliza-a. Por um de ns, dentro de pouco tempo, vai ter conhecimento da maneira carinhosa por que ser tratada, pois Csar descorts no ser nunca.
     EGPCIO - Que os deuses te conservem. (Sai.)
     CSAR - Proculeio, vem c. Vai j dizer-lhe que no receie humilhao nenhuma. D-lhe o conforto que exigir o gnero de sua dor, porque ela, em seu orgulho, 
por um golpe mortal no nos escape, pois com sua vida, em Roma, deixaremos eterno nosso triunfo. Vai e traze-nos o mais rapidamente que puderes notcia do que quer 
que ela houver dito e de como a tiveres encontrado.
     PROCULEIO - Csar, assim farei. (Sai.)
     CSAR - Galo, acompanha-o. (Sai Galo.) Onde est Dolabela? Que acompanhe Proculeio, tambm.
     AGRIPA e MECENAS - Oh Dolabela!
     CSAR - No, deixai-o; pois me recordo agora que o incumbi de um recado. Vir logo. Vamos  minha tenda. Heis de ver nela como entrei nesta guerra a contragosto, 
como revelo gentileza e calma nos meus escritos. Vinde, vinde, para verdes as provas do que digo.
     (Saem.)

      
Cena II
      
O mesmo. O tmulo. Entram, em cima, Clepatra, Charmian e Iras.
      
     CLEPATRA - O prprio desespero me inicia numa vida melhor.  pouca coisa ser to-somente Csar. Ele julga-se a Fortuna, mas  o seu lacaio, subserviente a 
seus gestos.  grandioso realizar o que a tudo pe remate, no caso pe grilhes, tranca as mudanas, faz dormir, sem jamais provar da lama de que o mendigo e Csar 
se alimentam.
     (Entram, em baixa, Proculeio, Galo e soldados.)
     PROCULEIO -  rainha do Egito envia Csar muitos saudares e te pede veres que pedido razovel ele pode satisfazer-te agora.
     CLEPATRA - Qual teu nome?
     PROCULEIO - Chamo-me Proculeio.
     CLEPATRA - J me tinha de vs falado Antnio, aconselhando-me a ter confiana em vs. Mas no se importa de poder ser burlada quem proveito nenhum tirar deseja 
da confiana. Se quer vosso amo que como mendiga lhe fale uma rainha, declarai-lhe que a majestade, para ser coerente, no pode menos de pedir-lhe um reino. Se ele 
quiser dar a meu filho o Egito conquistado, ter-me-, assim, dado tanto do que  meu mesmo, que hei de, agradecida, ajoelhar-me a seus ps.
     PROCULEIO - Ficai tranqila. Nada temais; estais na mo de um prncipe. Ao meu senhor vos entregai confiante, pois sua graa  tanta que se estende a todos 
os que dela necessitam. Permiti que lhe conte o modo brando por que vos submeteis, e vereis que ele, qual vencedor, prefere a complacncia, sempre que apelo  feito 
 sua graa.
     CLEPATRA - Comunicai-lhe, por favor, que serva sou de sua fortuna, e que lhe envio a grandeza por ele conquistada. A cada hora que passa, aprendo as regras 
da obedincia e, de grado, neste instante de frente o contemplara.
     PROCULEIO - Excelsa dama, vou dizer-lhe isso mesmo. Ficai calma, pois sei que vossa condio comove quem foi seu causador.
     GALO - Bem vedes como  fcil surpreend-la. (Proculeio e dois guardas sobem para o monumento por uma escada, por trs de Clepatra. Outros guardas tiram as 
trancas dos portes, patenteando o compartimento inferior do monumento.) Guardai-a bem, at que Csar chegue. (Sai.)
     IRAS - Real rainha!
     CHARMIAN - Clepatra, princesa, ests presa!
     CLEPATRA - Depressa, mos bondosas! (Saca de um punhal.)
     PROCULEIO - Parai, parai, dgna senhora! Calma! (Segura-a e desarma-a.) No faais a vs prpria essa injustia. Amparada aqui fostes, no trada.
     CLEPATRA - At mesmo da morte que liberta da peste nossos ces?
     PROCULEIO - Clepatra, sede prudente, no deixando assim frustrada a generosidade de meu amo, com vos fazerdes ora essa violncia. Possa o mundo admirar sua 
nobreza, que, com vosso trespasse, ficaria para sempre abafada.
     CLEPATRA - Onde ests, morte? Vem aqui; vem depressa apoderar-te de uma rainha que, por certo, vale bem um monte de crianas e mendigos.
     PROCULEIO - Moderao, senhora.
     CLEPATRA - De ora em diante no comerei, senhor, nem beberei. E se preciso for falar  toa, no dormirei tambm. Em runas hei de deixar a mortal casa. Faa 
Csar o que puder. Ficai, senhor, sabendo que amarrada jamais hei de deixar-me mostrar na corte de vosso alto mestre, nem castigada pelo olhar tranqilo daquela 
Otvia estpida. Teria de ser iada e, assim, ficar exposta  gritante ral da altiva Roma? Antes achar amena sepultura numa vala do Egito; antes na lama do Nilo 
me postai, de todo nua, para que em monstro as moscas me transformem; antes forca fazerem das pirmides altas de minha terra, para delas ficar dependurada por cadeias.
     PROCULEIO - Expandis mais os pensamentos ttricos do que podeis razo achar em Csar.
     (Entra Dolabela.)
     DOLABELA - Csar, teu amo, sabe, Proculeio, tudo quanto tens feito. Mandou ordem para que retornasses. Quanto  rainha, fica sob minha guarda.
     PROCULEIO - Assim me agrada, Dolabela, com ela s bondoso. (A Clepatra.) Direi a Csar o que desejardes, se de mim vos servirdes.
     CLEPATRA - Pois dizei-lhe que desejo morrer.
     (Saem Proculeio e os soldados.)
     DOLABELA - Nobre rainha, certamente de mim falar j ouviste?
     CLEPATRA - No poderei dizer-te.
     DOLABELA - Certamente me conheceis.
     CLEPATRA - Ora, senhor, que importa quanto eu j tenha ouvido ou conhecido? Certamente achais graa quando as crianas ou as mulheres vos falam de seus sonhos. 
 essa vossa pilhria?
     DOLABELA - No compreendo minha senhora.
     CLEPATRA - Sim, sonhei que havia um rei por nome Antnio. Ah! se eu pudesse mais uma vez dormir para, de novo, ver um homem como ele!
     DOLABELA - Se quiserdes...
     CLEPATRA - Como o cu tinha o rosto; nele havia sol e lua, que o giro perfaziam e a terra iluminavam, este zero pequenino.
     DOLABELA - Criatura soberana...
     CLEPATRA - Abarcava com as pernas o oceano; seu brao, levantado, de cimeira servia para o mundo. A voz tinha ele como a harmonia das esferas, sempre que aos 
amigos falava; mas querendo fazer tremer o mundo ou amedront-lo, era um trovo atroante. Para sua munificncia no havia inverno; era um constante outono, que aumentava 
a cada novo corte. Seus deleites eram como o golfinho: o dorso sempre deixavam ver por sobre as prprias ondas. Coroas e diademas apertavam-se em seu sqito, remos 
e ilhas eram quais moedas que do bolso lhe cassem.
     DOLABELA - Clepatra...
     CLEPATRA - Imaginais que pode haver um homem, que houve algum homem como o do meu sonho?
     DOLABELA - Gentil senhora, no.
     CLEPATRA - Mentis, por tudo quanto os deuses ouvem. Porm que tenha havido ou existir possa uma pessoa assim,  o que ultrapassa, de muito, qualquer sonho. 
 natureza falta matria para concorrncia fazer  fantasia. Mas o fato de um Antnio haver criado,  o maior golpe da natureza contra a fantasia, que o descrdito 
lana em seus produtos.
     DOLABELA - Boa senhora, ouvi-me. Vossa perda, tal, como vs,  grande, sendo certo que acarretais com todo o peso dela. Que nunca realizado eu ver consiga nenhum 
anseio antigo; na runa do vosso eu sinto uma tristeza imensa, que o corao me fere no mais ntimo.
     CLEPATRA - Obrigada, senhor. Sabeis, acaso, o que Csar de mim fazer pretende?
     DOLABELA - Desejaria que soubsseis quanto me repugna dizer-vos.
     CLEPATRA - Por obsquio...
     DOLABELA - Embora seja generoso...
     CLEPATRA - Pensa em me levar no triunfo?
     DOLABELA - Sim, senhora; tenho certeza disso.
     (Vozes, dentro: "Abri caminho! Abri caminho! Csar!")
     (Entram Csar, Galo, Proculeio, Mecenas, Seleuco e criados.)
     CSAR - A rainha do Egito est presente?
     DOLABELA - Senhora,  o imperador.
     (Clepatra se ajoelha.)
     CSAR - No; levantai-vos, levantai-vos, Egito, por obsquio.
     CLEPATRA - Senhor, os deuses querem desse modo; submissa ao meu senhor sou totalmente.
     CSAR - Abandonai os pensamentos tristes. Muito embora o relato das ofensas que nos fizestes tenha sido escrito em nossa carne, delas nos lembramos como de 
fatos casuais, apenas.
     CLEPATRA - nico rbitro do mundo, no consigo definir minha causa de maneira que vos parea clara; mas confesso que sobre mim pesavam muitas faltas que sempre 
envergonharam nosso sexo.
     CSAR - Sabei Clepatra: sempre preferimos aliviar a agravar. Se vos mostrardes sensata em relao a nossos planos - que a respeito de vs so generosos - benefcio 
achareis nessa mudana; porm se o peso sobre mim lanardes de uma crueldade, entrando pela via seguida por Antnio, dos benficos efeitos vos privais de meus projetos 
e expondes vossos filhos  runa de que pretendo resguard-los, caso me reveleis confiana. Aqui despeo-me.
     CLEPATRA - Podeis atravessar o mundo todo. Pertence-vos. E ns, vossos escudos e trofus da vitria, ficaremos pregados onde quer que vos agrade. Aqui, nobre 
senhor...
     CSAR - Em tudo havemos de vos ouvir no que respeita a Clepatra.
     CLEPATRA - (entregando-lhe um papel) - Aqui se encontra a relao das jias, do dinheiro e a baixela que eu possuo, em seu valor exato, sem incluirmos coisinhas 
sem valor. Onde se encontra Seleuco?
     SELEUCO - Aqui, senhora.
     CLEPATRA -  o tesoureiro. Consenti, meu senhor, que ele vos diga, nisso empenhando a prpria vida, como nada me reservei. Fala a verdade, Seleuco.
     SELEUCO - Senhora, antes selada ter a boca do que sob, penhor da prpria vida, dizer uma inverdade.
     CLEPATRA - Alguma coisa foi desviada por mim?
     SELEUCO - O suficiente para comprar o que ora declarastes.
     CSAR - Clepatra, no coreis; aprovo nisso vossa sabedoria.
     CLEPATRA - Vede, Csar, oh! vede como a pompa atrai os homens! Todos os meus, agora vos pertencem; mas se trocssemos as sortes, todos os vossos meus seriam. 
Dementada me deixa a ingratido desse Seleuco.  escravo, em que se pode confiar tanto como no amor comprado! Como? foges? Fazes bem em fugir, posso afianar-te. 
Mas hei de os olhos arrancar-te, embora sejam dotados de asas. Vil escravo, vilo sem alma, co, canalha raro!
     CSAR - Acalmai-vos, bondosa soberana.
     CLEPATRA -  Csar, como di tamanho oprbrio! Na hora em que concordais em visitar-me, a mim, to pequenina: vir meu prprio servidor aumentar minha desgraa 
com a parcela da inveja muito sua. Digamos, meu bom Csar, que de lado tivesse eu posto algumas ninharias de que as mulheres gostam, coisas simples e sem valor nenhum, 
desses objetos que costumamos dar aos conhecidos, ou digamos, tambm, que eu apartasse qualquer lembrana um tanto mais valiosa destinada por mim a Lvia e Otvia, 
para que a meu favor intercedessem: poderia ter sido denunciada por quem houvesse de meu po comido? Deuses! isso me faz cair mais baixo do que j me encontrava. 
(A Seleuco.) Vai-te embora; caso contrrio, sentirs as brasas do meu furor por entre a cinza fria do meu prprio destino. Caso fosses homem, de mim terias te apiedado.
     CSAR - Vai-te embora, Seleuco.
     (Sai Seleuco.)
     CLEPATRA -  sabido que ns, os grandes, somos responsveis por quanto os outros fazem, e que, quando camos, nosso nome serve para cobrir o alheio mrito. 
Por isso somos dignos de piedade.
     CSAR - No rol no incluiremos da conquista, Clepatra, quanto houvsseis apartado, nem mesmo nada do que declarastes. Tudo  vosso; disponde disso como melhor 
vos aprouver. E podeis crer-me: Csar no  um comerciante, vindo para convosco regatear o preo do que  vendido pelos comerciantes. Ficai, portanto, alegre, no 
fazendo vossa priso dos prprios pensamentos. Cara rainha, no; pois pretendemos convosco proceder sempre de acordo com vossa orientao. Alimentai-vos; ide dormir. 
Tanto cuidado temos, e piedade, de vs, que continuamos amigo sendo vosso. E agora, adeus.
     CLEPATRA - Meu mestre e meu senhor!
     CSAR - No, no! Adeus.
     (Fanfarra. Sai Csar com seu sqito.)
     CLEPATRA - Ele fala comigo, caras, fala somente para que eu no continue nobre comigo mesma. Mas escuta, Charmian. (Fala-lhe ao ouvido.)
     IRAS - Conclu, minha senhora; o dia radioso terminou; agora estamos em plena escurido.
     CLEPATRA - Vai l de novo; j falei nisso; est providenciado. Vai logo; apressa-te.
     CHARMIAN - Pois no, senhora.
     (Volta Dolabela.)
     DOLABELA - Onde est a rainha?
     CHARMIAN - Ali, senhor. (Sai.)
     CLEPATRA - Dolabela!
     DOLABELA - Senhora, preso  jura que de mim exigistes, que meu zelo transforma num dever, digo-vos isto: Csar pretende atravessar a Sria, sendo sua inteno, 
nestes trs dias na frente vos mandar com vossos filhos. Como puderdes, fazei uso disto. Como o quereis, fiz o prometido.
     CLEPATRA - Sou vossa devedora, Dolabela.
     DOLABELA - E eu, vosso servo. Adeus, boa rainha. Preciso esperar Csar.
     CLEPATRA - Vai; adeus. De novo, agradecida. (Sai Dolabela.) Iras, que dizes disso tudo? s uma boneca egpcia e, como eu, vais em Roma ser mostrada. Escravos 
artesos, de avental sujo, rguas e malhos, ho de levantar-nos para melhor nos verem. Envolvidas vamos ser por seus hlitos pesados que a alimentos grosseiros, 
s, tresandam, e que a aspirar foradas nos veremos.
     IRAS - Os deuses nos amparem!
     CLEPATRA - No;  certo, Iras;  mais que certo. Descarados lictores, como a prostitutas, ho de vir apalpar-nos, e versistas pfios nos cantaro fora de metro 
e rima. Histries habilidosos, no tablado nos improvisaro, representando nossas festas joviais de Alexandria. Antnio, bbedo, h de entrar no palco, tendo eu de 
ver algum menino-Clepatra de voz fina imitar minha grandeza com gestos de rameira.
     IRAS - Oh grandes deuses!
     CLEPATRA - Podes acreditar-me.
     IRAS - Nunca hei de ver tal coisa; tenho as unhas - estou certa - mais duras do que os olhos.
     CLEPATRA - Bravo!  o caminho de lograr seus planos e destruir-lhes o intento mais que absurdo. (Volta Charmian.) Agora, Charmian minhas companheiras, vinde 
arranjar-me como a uma rainha. Trazei o meu vestido mais custoso. De novo terei de ir ao Cidno, para ver-me com Marco Antnio. Iras, vai logo. Agora estamos prontas, 
nobre Charmian. E quando houveres feito esse servio, liberdade te dou para brincares at o dia do juzo derradeiro. Traze a coroa e tudo o mais. (Sai Iras. Ouve-se 
barulho.) Que  isso?
     (Volta um dos guardas.)
     GUARDA - A fora est um rstico que insiste em ver Vossa Grandeza. Traz-vos figos.
     CLEPATRA - Manda-o entrar. (Sai o guarda.) Como uma ao grandiosa pode ser feita por um meio humilde! Trouxe-me a liberdade. Continuo na mesma deciso, sem 
coisa alguma de mulher ter em mim. Tal como o mrmore, sou da cabea aos ps: inabalvel. A lua incerta no  o meu planeta.
     (Volta o guarda com o bobo, que traz uma cesta.)
     GUARDA - Eis aqui o homem.
     CLEPATRA - Vai-te embora e deixa-o. Ento, trouxeste o bonitinho verme do Nilo que, sem dor, pe termo  vida?
     BOBO - Trouxe-o, com certeza; mas no serei eu que vos aconselhe a tocar nele, porque sua picada  mortal. Os que morrem em conseqncia disso, raramente, ou 
nunca, se restabelecem.
     CLEPATRA - Sabes de algum que assim morrido houvesse?
     BOBO - Oh! em quantidade! Homens e mulheres tambm. Ainda anteontem ouvi falar de um caso: uma mulher de grande honestidade, mas um tanto amiga de mentir - 
o que a mulher nunca deve fazer, seno por maneira muito honesta - como veio a morrer da picada e que dores sentiu. Realmente, ela deu uma tima informao do verme; 
mas quem der crdito a tudo o que as mulheres dizem, no se salvar com a metade do que elas prprias fazem. Mas isso  muito falvel, o verme  um verme muito caprichoso.
     CLEPATRA - Bem, at logo; podes retirar-te.
     BOBO - Desejo que tenhais muito prazer com o verme. (Depe a cesta no cho.)
     CLEPATRA - Adeus.
     BOBO - No deveis esquecer, vede bem, que o verme tem suas manhas.
     CLEPATRA - Pois no; pois no. Adeus.
     BOBO - Vede bem! No se pode confiar no verme, a no ser sob a guarda de gente muito experta, porque, de fato, no h nele sombra de bondade.
     CLEPATRA - No te preocupes, que eu saberei tratar dele.
     BOBO - Perfeitamente No lhe ds nada a comer, que ele no vale o que come.
     CLEPATRA - Ser que ele comeria?
     BOBO - No haveis de pensar que eu seja to simplrio para no saber que o prprio diabo no come uma mulher. Sei muito bem que a mulher  prato para os deuses, 
quando no  o diabo que o prepara. Mas em verdade, esses malditos diabos causam muito mal aos deuses com as mulheres, porque de cada dez que estes aprontam, os 
diabos estragam cinco.
     CLEPATRA - Bem, podes ir embora. Adeus.
     BOBO - Sim, por minha f! Desejo-vos muita alegria com o verme. (Sai.)
     (Volta Iras com o manto, a coroa, etc.)
     CLEPATRA - D-me o manto; coloca-me a coroa. Anseios imortais em mim se agitam. Nunca jamais h de molhar-me os lbios o lquido de nossa vinha egpcia. Vamos, 
Iras; depressa! S parece que ouo Antnio chamar-me; levantar-se vejo-o e elogiar meu ato valoroso. Ouo como ele zomba da ventura de Csar, que aos mortais os 
deuses cedem para depois justificar sua clera. Caro esposo, eis-me aqui! Minha coragem ir provar que fao jus ao ttulo. Sou ar e fogo; os outros elementos cedo 
 vida inferior. J concluste? Ento vem e recebe de meus lbios o calor derradeiro. Adeus, querida Charmian; Iras querida, um longo adeus. (Beija-as; Iras cai 
e morre.) Tenho, acaso, nos lbios a serpente? Como! Caste! Se te separaste da natureza assim to gentilmente,  que o golpe da morte  como aperto de namorado, 
que machuca um pouco mas sempre  desejado. Ests tranqila? Se assim te foste,  porque ao mundo contas que digno ele no  de despedida.
     CHARMIAN - Nuvem, espalha o teu negrume e chove, para que eu dizer possa que at os deuses esto chorando.
     CLEPATRA - Isto s prova a minha pusilanimidade. Se primeiro do que eu ela encontrar o meu Antnio de cabelos cacheados, ele o beijo nela dar que para mim 
 o cu. Vem, coisinha fatal; (Aplica a serpente ao seio.) com o dente agudo o n complexo vem soltar da vida. Fica zangado, tolo venenoso; termina de uma vez. Oh! 
se falasses, chamarias o grande Csar de asno sem nenhuma viso.
     CHARMIAN - Estrela do nascente!
     CLEPATRA - Oh, no! Silncio! No vs que ao seio tenho o meu menino, na ama, a dormir, mamando?
     CHARMIAN - Parai! Parai!
     CLEPATRA - To doce como blsamo, brando como o ar, gentil... Oh meu Antnio!... Sim, tu tambm ters o meu carinho. (Aplica no brao outra serpente.) Por 
que haveria de ficar mais tempo... (Morre.)
     CHARMIAN - ...neste mundo to vil? Assim, adeus. Agora, morte, podes vangloriar-te de que uma rapariga incomparvel em teus braos sustentas.  janelas emplumadas, 
fechai-vos!  radioso Febo jamais ser de novo visto por uns olhos to reais. Vossa coroa ficou pendida; vou endireit-la e, aps, representar a minha parte.
     (Entra um guarda, precipitadamente.)
     PRIMEIRO GUARDA - Onde est a rainha?
     CHARMIAN - Falai baixo, para no despert-la.
     PRIMEIRO GUARDA - Csar mandou...
     CHARMIAN - ...um mensageiro lerdo. (Aplica em si prpria uma serpente.) Vem depressa. Termina. Mal te sinto.
     PRIMEIRO GUARDA - Aproximai-vos, ah! Algo se passa. Csar foi enganado.
     SEGUNDO GUARDA - Dolabela veio da parte dele, ide cham-lo.
     PRIMEIRO GUARDA - Que  que houve por aqui?  Charmian! Charmian! Achas que foi bem feito?
     CHARMIAN - Foi bem feito, digno de uma princesa que descende de tantos reais monarcas. Ah! soldado... (Morre.)
     (Volta Dolabela.)
     DOLABELA - Que aconteceu aqui?
     SEGUNDO GUARDA - Morreram todas.
     DOLABELA - Csar, teus pensamentos se confirmam neste particular. Tu prprio chegas para ver realizado o horrvel ato que evitar procuraste tanto e tanto!
     (Dentro: "Da passagem a Csar. Dai passagem!")
     (Volta Csar, com todo o seu sqito.)
     DOLABELA -  senhor! sois um ugur de confiana; o que receveis, deu-se.
     CSAR - Corajosa foi at o fim. Por ter desconfiado de nossas intenes, como legtima soberana, tomou o caminho prprio. Como morreram? No percebo sangue.
     DOLABELA - Quem por ltimo esteve junto delas?
     PRIMEIRO GUARDA - Um vil campnio, que lhe trouxe figos dentro desta cestinha.
     CSAR - Ento, estavam envenenados.
     PRIMEIRO GUARDA - Csar, esta Charmian at h pouco vivia. Estava plida e falou. Encontrei-a endireitando o diadema da morta. Ela tremia e caiu de repente.
     CSAR - Oh muito nobre fraqueza! Se elas ingerido houvessem algum veneno, logo o conhecramos pelo inchao exterior. Mas aparncia tem ela de quem dorme, de 
quem fosse prender um Outro Antnio nas cadeias fortes de seus encantos.
     DOLABELA - Sobre o seio tem um ponto de sangue, um pouco inchado, tal como aqui no brao.
     PRIMEIRO GUARDA -  a marcazinha de uma spide; estas folhas de figueira deixam ver lodo, tal como se encontra nas cavernas do Nilo em que h serpentes.
     CSAR -  bem provvel que ela assim morresse. Seu mdico me disse que ela tinha feito infinitas experincias sobre os meios de morrer mais facilmente. O leito 
carregai; do monumento o corpo retirai tambm das criadas. Sepultada vai ser junto do corpo do Marco Antnio dela. Nenhum tmulo jamais encerrar em toda a terra 
um to famoso par. Altos eventos como este aqui comovem at mesmo seus prprios causadores. Sua histria to dgna foi causa de chorados serem. Com solene aparato, 
nosso exrcito o enterro seguir. Depois, a Roma. A maior pompa. Dolabela,  que h de determinar esta solenidade.
     (Saem.)

      
(c) copyleft 2000 - Ridendo Castigat Mores

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